Ficar uma noite inteira sem dormir provoca mudanças mensuráveis em um marcador relacionado às conexões entre os neurônios, segundo um estudo realizado com 40 adultos saudáveis. Após aproximadamente 28 horas de vigília contínua, os pesquisadores identificaram aumento da proteína SV2A em diferentes regiões do cérebro, incluindo áreas ligadas à memória, à atenção e ao estado de alerta.
A pesquisa foi conduzida por cientistas do Centro de Pesquisa Jülich, na Alemanha, e publicada na revista científica PLOS Biology. Os resultados oferecem uma das evidências mais diretas obtidas em seres humanos de que o período prolongado acordado altera o equilíbrio das sinapses, pontos de contato responsáveis pela comunicação entre as células nervosas.
O aumento observado não significa melhora da atividade cerebral. De acordo com os autores, a elevação do marcador pode refletir o acúmulo de alterações sinápticas durante a vigília, que normalmente seriam reguladas pelo sono.
Como os pesquisadores avaliaram o cérebro
O estudo acompanhou 40 adultos saudáveis, com idade média próxima dos 28 anos. Os participantes foram distribuídos aleatoriamente em dois grupos, cada um formado por 20 pessoas.
O grupo de controle manteve a rotina normal e dormiu, em média, 7,8 horas entre as duas avaliações. Os integrantes do outro grupo permaneceram acordados durante a noite e chegaram ao segundo exame após cerca de 28 horas de vigília contínua.
Todos foram examinados duas vezes, em manhãs consecutivas e em horários semelhantes. Essa organização permitiu reduzir a influência do ritmo biológico diário sobre os resultados.
Os cientistas combinaram a tomografia por emissão de pósitrons, conhecida pela sigla PET, com a ressonância magnética. O procedimento utilizou uma substância rastreadora que se liga à proteína SV2A, encontrada nas pequenas estruturas responsáveis por armazenar e liberar neurotransmissores nos terminais dos neurônios.
Os neurotransmissores são substâncias químicas usadas pelas células nervosas para transmitir sinais. Como a SV2A está presente nessas estruturas, sua medição é utilizada como uma forma indireta de estimar a densidade das sinapses no cérebro vivo.

Marcador aumentou em diferentes regiões cerebrais
Após a privação de sono, o nível do marcador aumentou de forma significativa em seis das oito regiões avaliadas. No grupo que dormiu normalmente, os pesquisadores não identificaram mudanças relevantes entre os dois exames.
Os maiores aumentos destacados no estudo foram registrados no hipocampo, com elevação de 5,6%; no tálamo, com 4,6%; e no córtex parietal, com 3,2%.
O hipocampo participa de processos relacionados à memória e ao aprendizado. O tálamo tem função importante na manutenção da vigília e na transmissão de informações sensoriais, enquanto o córtex parietal está envolvido, entre outras atividades, na atenção e na orientação espacial.
Embora as mudanças tenham variado aproximadamente entre 2% e 6%, os pesquisadores consideraram os resultados consistentes. Segundo o especialista em sono David Elmenhorst, a extensão das alterações provocadas por uma única noite sem dormir foi um dos aspectos que mais chamou a atenção da equipe.
O trabalho também constatou aumento da sonolência e piora no desempenho cognitivo entre os voluntários privados de sono. Os testes utilizados avaliaram principalmente a capacidade de manter a atenção e responder rapidamente a estímulos.
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Sono pode ajudar a reorganizar as conexões
Os resultados apoiam uma hipótese científica conhecida como homeostase sináptica. Segundo essa proposta, permanecer acordado leva o cérebro a processar informações, responder a estímulos e modificar continuamente suas conexões.
Durante o sono, parte dessa atividade seria reorganizada ou reduzida, permitindo que o sistema nervoso recupere o equilíbrio. O descanso, portanto, não representa uma fase de desligamento do cérebro, mas um período relacionado à regulação de processos acumulados ao longo do dia.
Depois do segundo exame, os participantes que passaram a noite acordados tiveram a oportunidade de dormir por duas horas. A atividade cerebral foi acompanhada por eletroencefalograma durante o descanso.
Os voluntários com maiores aumentos de SV2A também apresentaram maior atividade de ondas lentas. Esse padrão está associado ao sono profundo e costuma aumentar quando existe maior pressão fisiológica para dormir.
A correlação observada reforça a interpretação de que o organismo responde ao período prolongado de vigília com uma necessidade maior de sono restaurador. O estudo, no entanto, não demonstrou que um cochilo de duas horas tenha revertido completamente as mudanças no marcador.

Resultado não representa uma contagem direta de sinapses
Os autores ressaltam que a SV2A é um indicador indireto. A pesquisa mediu a disponibilidade dessa proteína por meio de exames de imagem, e não contou individualmente as sinapses presentes no cérebro dos participantes.
Por esse motivo, o aumento do marcador deve ser interpretado como evidência compatível com uma mudança na densidade ou na atividade sináptica. Outros fatores biológicos também podem influenciar a forma como a proteína é detectada.
Outra limitação é o período analisado. O trabalho avaliou os efeitos de uma situação aguda, provocada por uma única noite sem dormir, e não permite estabelecer o que ocorre com pessoas que dormem pouco durante semanas, meses ou anos.
Os resultados também foram obtidos em adultos jovens e saudáveis. Novos estudos serão necessários para verificar se a resposta é semelhante em outras faixas etárias e em pessoas com problemas de sono ou condições clínicas específicas.
Pesquisa pode contribuir para estudos sobre saúde mental
A técnica utilizada pode ajudar a compreender as variações naturais da SV2A em pessoas saudáveis. Esse conhecimento é importante porque alterações sinápticas também são investigadas em pesquisas sobre doenças mentais e neurológicas.
Sem conhecer a influência do sono, do horário, do estresse e do tempo em vigília, diferenças encontradas em exames poderiam ser interpretadas de maneira inadequada. O estado de descanso do paciente poderá precisar ser considerado em estudos futuros que utilizem o mesmo marcador.
A pesquisa não demonstra que uma única noite sem dormir provoque uma doença mental. Ela também não responde se a privação crônica pode causar alterações permanentes, tema que exige investigações de maior duração.
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Apaixonada pela literatura brasileira e internacional, Heloísa Montagner Veroneze é reatora de artigos locais e regionais, com experiência em temas diversos, especialmente sobre livros, arqueologia e curiosidades.
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