Planeta orbita tão perto da estrela que seus campos magnéticos se conectam

Planeta orbita tão perto da estrela que seus campos magnéticos se conectam

Pesquisadores identificaram variações periódicas na atividade da estrela GJ 436 que seriam provocadas pela passagem de um planeta próximo e pela interação entre os campos magnéticos dos dois corpos. O fenômeno permitiu estimar a intensidade do campo magnético do exoplaneta GJ 436 b, um mundo com dimensões semelhantes às de Netuno.

O estudo foi liderado por pesquisadores do Conselho Superior de Investigações Científicas da Espanha e publicado na revista Science. A equipe analisou 18 anos de observações espectroscópicas de alta resolução, técnica que permite decompor a luz da estrela e identificar mudanças em determinadas faixas de energia.

Os resultados mostram aumentos regulares na atividade da estrela associados ao movimento orbital do planeta. Segundo os autores, o padrão representa uma das evidências mais consistentes obtidas até agora de que um exoplaneta pode alterar diretamente o comportamento de sua estrela.

A interpretação é baseada na conexão temporária entre linhas dos campos magnéticos estelar e planetário. Quando o planeta atravessa determinadas regiões ao redor da estrela, essa interação transfere energia para a atmosfera estelar e produz sinais que podem ser detectados a partir da Terra.

GJ 436 b completa uma órbita em menos de três dias

GJ 436 b é classificado como um Netuno quente, expressão utilizada para planetas de tamanho semelhante ao de Netuno que orbitam muito perto de suas estrelas. O exoplaneta leva cerca de 2,64 dias para completar uma volta ao redor de GJ 436.

A comparação com o Sistema Solar mostra a diferença entre essas configurações. Mercúrio, o planeta mais próximo do Sol, demora 88 dias para completar sua órbita. A descoberta de milhares de exoplanetas demonstrou, porém, que períodos de poucos dias são relativamente comuns em outros sistemas.

Essa proximidade expõe os planetas a níveis elevados de radiação, calor e vento estelar. Entre os efeitos observados em mundos desse tipo estão atmosferas muito extensas, perda de gases para o espaço e, em alguns casos, presença de elementos vaporizados pelas altas temperaturas.

No caso de GJ 436 b, a distância reduzida também permite que o planeta permaneça em uma região fortemente influenciada pelo campo magnético da estrela. Essa condição cria a possibilidade de uma interação direta entre os dois corpos.

Variações foram observadas em três períodos diferentes

Os pesquisadores analisaram dados obtidos ao longo de quase duas décadas pelos espectrógrafos HARPS e CARMENES. Esses instrumentos registram pequenas variações em linhas específicas do espectro luminoso, usadas como indicadores da atividade nas camadas externas da estrela.

Os sinais atribuídos à interação foram identificados em observações realizadas em 2008, 2016 e 2024. Os três episódios estão separados por intervalos de oito anos, período que coincide com o ciclo de atividade magnética da estrela.

O fenômeno, portanto, não foi observado de forma contínua. A hipótese dos cientistas é que a interação se torna mais intensa, ou mais fácil de detectar, durante determinadas fases do ciclo magnético de GJ 436.

As mudanças também acompanharam uma combinação entre o período orbital do planeta e a rotação da estrela. Para a equipe, essa correspondência reduz a possibilidade de que o aumento de atividade seja resultado apenas de processos internos da estrela.

Os dados indicam que o planeta deposita energia na cromosfera, uma das camadas superiores da atmosfera estelar. O efeito produz uma região de maior atividade, comparada pelos pesquisadores a uma aurora em escala estelar.

Campo magnético foi estimado por método indireto

Campos magnéticos de exoplanetas são difíceis de detectar porque esses mundos estão muito distantes e aparecem próximos ao brilho intenso de suas estrelas. Diferentemente da Terra e de outros planetas do Sistema Solar, não é possível enviar sondas para realizar medições diretas.

A equipe utilizou modelos matemáticos para reproduzir os períodos de atividade registrados. Os cálculos indicam que GJ 436 b teria um campo magnético entre 6 e 110 gauss.

Segundo os pesquisadores, essa faixa corresponde a uma intensidade entre 2,33 e 27 vezes maior que a do campo magnético de Júpiter. A margem é ampla porque a estimativa depende da geometria do sistema, da estrutura dos campos e da quantidade de energia transferida.

O resultado não representa uma medição direta do magnetismo do planeta. Trata-se de uma inferência obtida a partir dos efeitos observados na estrela e da comparação com modelos de interação magnética.

Ainda assim, o método apresenta uma nova possibilidade para estudar propriedades que permaneciam praticamente inacessíveis. A repetição dos sinais ao longo de diferentes períodos reforça a interpretação, embora novas observações sejam necessárias para confirmar os detalhes do processo.

Magnetismo influencia a evolução das atmosferas

O campo magnético pode afetar a maneira como um planeta interage com partículas e radiação emitidas pela estrela. Esse processo tem importância para a preservação ou perda da atmosfera ao longo do tempo.

Na Terra, a magnetosfera ajuda a desviar parte das partículas carregadas presentes no vento solar. Isso não significa que o magnetismo, sozinho, determine se um planeta pode abrigar vida, mas ele participa da evolução das condições atmosféricas.

GJ 436 b não é considerado semelhante à Terra. O planeta possui características de um gigante gasoso quente e está submetido a condições extremas. Seu estudo, porém, pode ajudar os astrônomos a desenvolver métodos que futuramente sejam aplicados a mundos menores.

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