Crianças que viajam para mundos desconhecidos, enfrentam vilões, organizam sociedades ou precisam resolver problemas que normalmente caberiam aos adultos aparecem com frequência na literatura. Em muitas dessas histórias, a aventura somente se torna possível porque os pais estão distantes, morreram, não percebem o que acontece ou simplesmente não oferecem a proteção esperada.
A ausência dos responsáveis não funciona apenas como um recurso para retirar obstáculos do caminho dos protagonistas. Ela também permite que autores abordem amadurecimento, abandono, autonomia, medo e busca por pertencimento. Em alguns livros, os pais desaparecem fisicamente; em outros, permanecem dentro de casa, mas parecem incapazes de compreender os próprios filhos.
Peter Pan, de J. M. Barrie
Wendy, João e Miguel deixam a casa da família em Londres e seguem Peter Pan até a Terra do Nunca, onde encontram piratas, sereias, fadas e os Meninos Perdidos. A viagem acontece praticamente sem interferência dos pais, que permanecem em casa enquanto os filhos enfrentam perigos em outro mundo.
A ausência dos adultos permite que a história explore a fantasia de uma infância sem regras, horários ou obrigações. Ao mesmo tempo, o livro contrapõe essa liberdade à ideia de crescer, assumir responsabilidades e construir vínculos familiares. Wendy ocupa, em vários momentos, uma posição de cuidado entre as crianças, como se tentasse preencher o espaço deixado pelos adultos.

O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, de C. S. Lewis
Pedro, Susana, Edmundo e Lúcia são enviados ao interior da Inglaterra durante a guerra. Instalados na casa de um professor, os quatro irmãos encontram um guarda-roupa que funciona como passagem para Nárnia.
A distância dos pais é explicada pelo contexto do conflito, mas a partir da entrada em Nárnia as crianças precisam tomar decisões sem a presença de familiares. Elas enfrentam a Feiticeira Branca, participam de batalhas e assumem responsabilidades políticas em um reino desconhecido.
A falta de supervisão adulta é fundamental para que os irmãos deixem a posição de crianças protegidas e passem a agir como personagens responsáveis pelo destino de outras pessoas.

O Senhor das Moscas, de William Golding
Um acidente aéreo deixa um grupo de meninos isolado em uma ilha, sem qualquer adulto por perto. No início, eles tentam estabelecer regras, escolher lideranças e manter uma fogueira acesa para chamar a atenção de possíveis equipes de resgate.
A organização, no entanto, começa a se desfazer à medida que surgem disputas pelo poder, medo e violência. O livro utiliza a ausência completa dos adultos para discutir comportamento coletivo, autoridade e os limites das regras sociais.
Diferentemente de aventuras em que crianças livres constroem um mundo divertido, William Golding apresenta um cenário no qual a falta de referências e instituições provoca consequências graves. A pergunta sobre onde estão os adultos deixa de ser apenas curiosa e passa a representar o colapso da ordem.

Mau Começo, de Lemony Snicket
Primeiro volume de Desventuras em Série, o livro acompanha Violet, Klaus e Sunny Baudelaire depois da morte dos pais em um incêndio. Os irmãos são enviados para morar com o Conde Olaf, um parente interessado na fortuna deixada pela família.
Os adultos que deveriam proteger as crianças não conseguem perceber as intenções do vilão, mesmo quando os irmãos apresentam sinais evidentes do perigo. Essa incapacidade se torna uma característica recorrente da série.
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A ausência parental é acompanhada pela falha das instituições responsáveis pelas crianças. Os Baudelaire precisam confiar na inteligência, na capacidade de observação e na união entre os irmãos para escapar dos planos de Olaf.

Matilda, de Roald Dahl
Os pais de Matilda estão fisicamente presentes, mas demonstram pouco interesse pelas habilidades e necessidades da filha. Enquanto a menina revela inteligência incomum e grande interesse pelos livros, a família trata sua curiosidade como inconveniente.
Na escola, a situação também não melhora imediatamente. Matilda enfrenta a diretora Agatha Trunchbull, conhecida por intimidar os alunos. A professora Jennifer Honey é uma das poucas adultas que reconhecem as capacidades da protagonista e oferecem apoio.
O livro mostra que a presença dos pais não significa necessariamente proteção ou cuidado. Matilda precisa encontrar fora da família biológica uma figura adulta capaz de ouvi-la e respeitar sua inteligência.

Coraline, de Neil Gaiman
Coraline mora com os pais, mas sente que eles estão frequentemente ocupados e pouco atentos ao que ela deseja. Ao atravessar uma porta escondida, encontra uma casa semelhante à sua, habitada por versões aparentemente mais dedicadas de sua mãe e de seu pai.
A atenção oferecida pela Outra Mãe parece preencher uma carência da protagonista. Aos poucos, porém, Coraline percebe que aquele mundo exige um preço e que o cuidado apresentado inicialmente esconde controle e ameaça.
A obra trabalha com duas formas diferentes de presença parental. De um lado estão pais reais, distraídos, mas afetivamente importantes. Do outro, uma figura que oferece atenção constante, porém pretende retirar a liberdade e a identidade da menina.

O Jardim Secreto, de Frances Hodgson Burnett
Mary Lennox perde os pais e é enviada da Índia para viver na propriedade de um tio na Inglaterra. O novo responsável permanece distante, e a menina passa grande parte do tempo explorando a casa e os arredores.
Durante essas explorações, Mary encontra um jardim abandonado e conhece outras crianças que também vivem marcadas pela solidão, pelo isolamento e pela falta de cuidado. A recuperação do espaço acompanha as mudanças emocionais dos personagens.
A ausência dos pais inicia a trajetória da protagonista, mas o livro não permanece concentrado apenas na perda. A história mostra como amizades, contato com a natureza e novos vínculos podem criar formas alternativas de pertencimento.

Conclusão
Embora pertençam a épocas e gêneros distintos, os livros mostram que retirar os adultos do centro da narrativa permite observar as crianças de outra forma. Sem respostas prontas, elas precisam interpretar o mundo, enfrentar suas limitações e decidir em quem podem confiar.
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Apaixonada pela literatura brasileira e internacional, Heloísa Montagner Veroneze é reatora de artigos locais e regionais, com experiência em temas diversos, especialmente sobre livros, arqueologia e curiosidades.
Nota Editorial: Este conteúdo faz parte da cobertura jornalística do Jornal da Fronteira, feito por humano com ajuda de ferramentas de inteligência artificial, sob revisão de editor humano.
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