Uma sessão de banho de floresta conduzida nas proximidades do Monte Vulcão serve de ponto de partida para Richard Louv examinar o que acontece quando uma pessoa reduz o ritmo, interrompe a busca por um destino e passa a observar cuidadosamente o ambiente. No ensaio, o jornalista e escritor mostra como sons, movimentos, texturas e lembranças podem ganhar outra dimensão quando recebem atenção.
O relato faz parte de Noticing: Intimate Encounters with the Natural World, livro no qual Louv investiga a relação entre os sentidos humanos e a natureza. Conhecido por obras sobre o afastamento das crianças dos ambientes naturais, o autor volta-se, desta vez, à capacidade de perceber detalhes que normalmente passam despercebidos na rotina.
A atividade é conduzida por Janice Bina-Smith, musicista, educadora ambiental e guia em formação na área de terapia florestal. Diante do grupo reunido entre folhas, árvores e rajadas de vento, ela resume sua função com uma frase: “A floresta é a terapeuta”. À guia, segundo essa abordagem, cabe apenas abrir a porta para a experiência.
Banho de floresta não tem como objetivo chegar a algum lugar
A proposta apresentada por Janice difere de uma caminhada convencional. Em uma trilha, o participante geralmente segue um percurso definido e mantém a atenção voltada ao ponto de chegada, ao tempo ou à distância percorrida.
No banho de floresta, conhecido pelo termo japonês shinrin-yoku, o objetivo é permanecer no presente. A pessoa caminha lentamente, interrompe o deslocamento com frequência e utiliza os sentidos para notar sons, aromas, superfícies, cores e movimentos.
Durante a experiência descrita por Louv, a guia convida os participantes a fechar os olhos, ouvir o vento e distinguir os ritmos dos pássaros. Em outro momento, pede que observem o ambiente como se estivessem vendo a natureza pela primeira vez.
O exercício provoca respostas diferentes. Uma participante recorda a curiosidade intensa da infância. Outra percebe a perda gradual da própria audição ao notar o ar passando pelos ouvidos. Louv, por sua vez, encontra em uma pedra cercada por folhas uma ligação inesperada com lembranças familiares.
Essas reações mostram que a prática não depende de grandes paisagens ou acontecimentos extraordinários. O ponto central está na atenção oferecida aos elementos mais simples, como uma casca de árvore, uma sombra em movimento, uma formiga ou a luz atravessando os galhos.
Prática surgiu no Japão e ganhou espaço em outros países
O termo shinrin-yoku foi adotado no Japão em 1982 para descrever a imersão consciente na atmosfera das florestas. Desde então, a prática passou a ser estudada por pesquisadores interessados nas relações entre ambientes naturais, redução do estresse e saúde.
Uma revisão publicada em 2019 reuniu pesquisas sobre possíveis efeitos físicos e psicológicos do banho de floresta. Os estudos analisados indicaram benefícios potenciais relacionados ao humor, à ansiedade, à pressão arterial, ao estresse e a alguns marcadores do sistema imunológico.
Parte das pesquisas também investiga o papel dos fitoncidas, compostos orgânicos liberados por determinadas plantas e árvores. Essas substâncias ajudam os vegetais a se proteger contra alguns microrganismos e podem ser inaladas por pessoas que permanecem em áreas arborizadas.
As evidências, porém, exigem interpretação cuidadosa. Os resultados mais consistentes estão relacionados ao relaxamento, à redução temporária do estresse e à melhora do bem-estar emocional. Ainda não há comprovação suficiente para tratar o banho de floresta como substituto de atendimento médico ou psicológico.
A prática deve ser entendida como uma atividade complementar de contato com a natureza. Além disso, os efeitos podem estar associados a diferentes fatores combinados, como afastamento do ruído urbano, movimento físico leve, descanso, silêncio e estímulo dos sentidos.
Árvores e sombras passam a assumir novos significados
Ao longo da sessão, os participantes recebem convites para observar movimentos e estabelecer uma relação mais atenta com alguma árvore. Louv descreve troncos marcados por queimaduras, cascas em processo de recuperação, folhas agitadas pelo vento e árvores jovens crescendo ao redor dos restos de uma estrutura antiga.
O que poderia ser visto apenas como parte da paisagem transforma-se em fonte de interpretações pessoais. Uma árvore caída, mas sustentada pelos galhos de outras, desperta em uma participante uma reflexão sobre sobrevivência e apoio. Árvores de tamanhos diferentes evocam a imagem de indivíduos que crescem juntos sem perder suas características próprias.
O escritor observa que muitos relatos compartilhados pelo grupo se aproximam de parábolas ou narrativas populares. As formas naturais passam a representar resistência, envelhecimento, cuidado, medo, perda e renovação.
Esse processo não significa que as árvores transmitam mensagens objetivas. As interpretações surgem da experiência, das memórias e das emoções de cada participante. A floresta funciona como um espaço no qual pensamentos internos encontram imagens externas capazes de lhes dar forma.
Louv também percebe ilusões provocadas pela atenção prolongada. Uma faixa de vegetação parece água corrente, enquanto pedaços de casca lembram chamas. Ao abandonar a observação rápida, o ambiente deixa de ser um cenário uniforme e passa a revelar detalhes, movimentos e relações.
Desacelerar aparece como resposta à distração cotidiana
A experiência descrita por Richard Louv propõe uma mudança simples, mas difícil em um cotidiano marcado por telas, notificações e excesso de estímulos: permanecer diante de algo sem a necessidade de registrar, classificar ou seguir imediatamente para a próxima atividade.
O autor relaciona essa capacidade ao olhar infantil, período em que objetos comuns ainda podem despertar curiosidade. Recuperar essa atenção não significa negar o conhecimento ou idealizar a natureza, mas permitir que o ambiente seja observado antes de receber uma explicação automática.
No encerramento da atividade, o grupo volta a se reunir. Janice serve um chá preparado com elementos vegetais e derrama a primeira xícara sobre o chão, em um gesto simbólico de agradecimento à terra. Louv reconhece que algumas pessoas podem resistir a rituais desse tipo, mas registra que a sensação de paz e compaixão permaneceu após a experiência.
O relato reforça a ideia central de Noticing: perceber é uma habilidade que pode ser recuperada. A prática envolve reduzir a velocidade, estimular os sentidos e aceitar que nem todos os elementos do mundo natural precisam ser compreendidos imediatamente.
Para acompanhar outras obras, autores e reflexões sobre a relação entre literatura e natureza, acesse também a editoria de livros do Jornal da Fronteira.
Mais do que apresentar o banho de floresta como uma solução para os problemas da vida moderna, Louv propõe uma revisão da maneira como as pessoas ocupam o espaço ao redor. A floresta, nesse contexto, não oferece respostas prontas, mas cria condições para que detalhes esquecidos voltem a ser vistos.

Apaixonada pela literatura brasileira e internacional, Heloísa Montagner Veroneze é reatora de artigos locais e regionais, com experiência em temas diversos, especialmente sobre livros, arqueologia e curiosidades.
Nota Editorial: Este conteúdo faz parte da cobertura jornalística do Jornal da Fronteira, feito por humano com ajuda de ferramentas de inteligência artificial, sob revisão de editor humano.
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