Vinícolas brasileiras ampliam a produção de vinhos de inverno com o uso da dupla poda, técnica que permite colher uvas durante o período mais seco do ano
A produção brasileira de vinhos de inverno deve registrar crescimento de 15% em 2026, segundo projeção da Associação Nacional de Produtores de Vinho de Inverno. O avanço é sustentado pela ampliação do uso da dupla poda, técnica que modifica o ciclo produtivo das videiras e transfere a colheita para os meses de menor volume de chuvas.
Atualmente, 56 vinícolas associadas à entidade utilizam o sistema em áreas localizadas nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste. A expansão da técnica permite o desenvolvimento da vitivinicultura fora das zonas tradicionalmente produtoras e estabelece um calendário agrícola diferente daquele adotado na produção convencional de uvas.
As vinícolas vinculadas à associação reúnem aproximadamente 1,49 milhão de pés de uva. Dados apresentados pelo setor também apontam a produção de cerca de 1,1 milhão de garrafas. As colheitas são realizadas principalmente entre junho e agosto, período caracterizado por menor ocorrência de chuvas e maior incidência de luz solar em parte das regiões produtoras.
Essas condições climáticas favorecem a sanidade das uvas e o desenvolvimento dos compostos necessários à elaboração de vinhos finos. O controle do período de maturação também permite que os produtores reduzam parte dos riscos relacionados ao excesso de umidade durante a fase final do ciclo da videira.
A produção permanece concentrada em propriedades familiares, que representam aproximadamente 90% das vinícolas do segmento. O modelo tem contribuído para a diversificação de áreas rurais anteriormente destinadas ao cultivo de café e grãos ou à criação de gado leiteiro.
A vitivinicultura também passou a ser considerada uma alternativa de renda e de continuidade das atividades familiares no campo. A produção exige planejamento, acompanhamento técnico e controle das condições do solo, do clima e do desenvolvimento das plantas.
A técnica da dupla poda começou a ser desenvolvida a partir de pesquisas conduzidas em 2000 pelo pesquisador Murilo Regina. O método utiliza duas podas anuais para inverter o ciclo natural da videira.
A primeira intervenção é destinada à formação dos ramos que serão utilizados na produção seguinte. A segunda poda direciona o desenvolvimento da planta para que a maturação das uvas ocorra durante o inverno, quando o clima é mais seco em determinadas regiões brasileiras.
Com a alteração do ciclo, a colheita deixa de ocorrer durante o verão, período que costuma apresentar maior volume de chuva. A menor umidade durante o inverno reduz a exposição das uvas a doenças e favorece a maturação fenólica, processo relacionado ao desenvolvimento da cor, dos aromas, dos taninos e de outros componentes da fruta.
A estrutura de controle da produção inclui o Centro de Análises e Pesquisa da Anprovin e da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial, instalado em Brasília. O centro recebeu investimento de R$ 3,4 milhões e atua na análise, na padronização e na certificação dos produtos.
O selo adotado pela associação registra informações relacionadas à origem, à altitude e ao lote dos vinhos. O sistema busca ampliar a rastreabilidade e permitir a identificação das características de cada área de produção.
A dupla poda apresenta resultados em diferentes condições regionais. Em Goiás e no Distrito Federal, as colheitas ocorrem principalmente entre julho e agosto. Entre as variedades cultivadas estão Syrah, Sauvignon Blanc, Cabernet Franc e Chardonnay.
Na Chapada Diamantina, na Bahia, a colheita começa em junho. As plantações da região incluem variedades como Sauvignon Blanc, Pinot Noir e Cabernet Sauvignon.
Em São Paulo e Minas Gerais, principais áreas produtoras de vinhos de inverno no Sudeste, a retirada das uvas dos parreirais ocorre entre junho e julho. Vinhos produzidos nesses estados já receberam avaliações superiores a 90 pontos em guias especializados.
O levantamento referente a 2025 aponta uma produção de 1,49 milhão de garrafas. A variedade Syrah respondeu por 42% do volume total, mantendo-se como a principal uva utilizada na elaboração dos vinhos de inverno brasileiros.
A Sauvignon Blanc representou 17% da produção, seguida pela Cabernet Franc, com 12%, e pela Cabernet Sauvignon, com 10%. O setor também utiliza variedades como Malbec, Marselan, Pinot Noir, Chardonnay e Merlot.
A Anprovin projeta triplicar a capacidade produtiva do segmento até 2029. A estimativa está relacionada à implantação de novos vinhedos, ao desenvolvimento tecnológico, à ampliação da infraestrutura e à participação dos produtos brasileiros em avaliações e eventos internacionais.
A expansão, entretanto, depende de condições específicas para o cultivo. O sistema apresenta maior viabilidade em regiões com altitude adequada, solos com boa drenagem e inverno seco.
A implantação dos parreirais também exige investimento inicial, acompanhamento agronômico e planejamento de longo prazo. A produção destinada a vinhos finos depende do controle da produtividade das plantas e da qualidade da matéria-prima utilizada pelas vinícolas.
Para os produtores rurais que atendem aos requisitos técnicos e climáticos, a vitivinicultura de inverno representa uma alternativa de diversificação. O modelo reúne produção agrícola, processamento industrial, certificação e comercialização de produtos de maior valor agregado.
A previsão de crescimento para 2026 indica a continuidade da expansão da atividade em diferentes estados. O avanço da dupla poda e a adoção de mecanismos de controle de origem devem manter a produção de vinhos de inverno entre as áreas em desenvolvimento na vitivinicultura brasileira.
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Lara Gabriely escreve sobre assuntos locais, mas também sobre assuntos relacionados à política dos estados do Paraná e Santa Catarina, além de outros fatos interesse regional.
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