Peixes, mamíferos aquáticos e terrestres desenvolveram soluções distintas para proteger o corpo ao longo de milhões de anos de evolução, por isso peixes não têm pelos. Antonio Figueras Huerta, professor de investigação do Consejo Superior de Investigaciones Científicas (Instituto de Investigaciones Marinas, IIM‑CSIC), explica as diferenças nas coberturas corporais entre espécies aquáticas como salmão, golfinho e leão‑marinho e por que elas surgiram.
Origem dos pelos e separação das linhagens
O pelo é uma característica que surgiu na linhagem dos sinápsidos, grupo de amniotas que inclui mamíferos e seus ancestrais, a partir de mais de 300 milhões de anos atrás. Evidências fósseis indicam presença de pelos em coprólitos de terapsídeos com cerca de 250 milhões de anos e impressões de pelagem em mamíferos do Jurássico, há cerca de 165 milhões de anos. A pelagem já existia quando as três grandes linhagens atuais de mamíferos — monotremados, marsupiais e placentários — se separaram.
Por que peixes nunca tiveram pelos
Peixes se separaram da linhagem que daria origem aos vertebrados terrestres há cerca de 375–400 milhões de anos, muito antes do surgimento dos pelos. Em vez de pelos, desenvolveram escamas — estruturas mineralizadas da derme compostas por osso, dentina ou material semelhante ao esmalte — e, nos peixes ósseos, camadas ricas em colágeno (elasmodina) cobertas por uma camada óssea. Essas coberturas proporcionam proteção mecânica sem prejudicar a mobilidade.
Além das escamas, a pele dos peixes é recoberta por muco. Essa camada viscosa não atua só como lubrificante: reduz atrito hidrodinâmico, dificulta a entrada de patógenos e ajuda a regular a troca de sais com o ambiente aquático. Em tubarões e raias, por exemplo, as escamas placoides — estruturas semelhantes a dentes — diminuem a resistência da água e serviram de inspiração para aplicações industriais.
Pelos como adaptação à vida terrestre
Quando os vertebrados conquistaram a terra firme, as propriedades físicas mudaram: a água conduz calor cerca de 25 vezes melhor que o ar, e reter uma camada de ar junto ao corpo passou a ser vantajoso. O pelo funciona como isolante ao manter o ar imóvel próximo à pele, reduzindo a perda de calor; também protege contra radiação solar, abrasão e parasitas, e em alguns casos tem função sensorial, como as vibrissas de focas.
Retorno ao mar e substituição por gordura
Alguns mamíferos terrestres retornaram ao ambiente aquático em momentos distintos e de forma independente: a linhagem que deu origem a baleias e golfinhos iniciou esse processo há cerca de 50 milhões de anos, os peixes‑boi pouco depois, e os pinípedes mais tarde. Os fósseis mais antigos de pinípedes datam do Oligoceno tardio, entre 27–30 milhões de anos.
No mar, a camada de ar aprisionada pelos pelos é comprimida e perde eficácia isolante; a gordura subcutânea, por outro lado, não se comprime e mantém a capacidade de isolamento mesmo em grandes profundidades, além de suavizar o contorno corporal e reduzir o gasto energético ao nadar. Por isso, ao longo de gerações, a seleção natural favoreceu o aumento da gordura subcutânea em várias linhagens aquáticas em substituição ao pelo.
Gradientes e convergência evolutiva entre mamíferos aquáticos
Os cetáceos representam o extremo dessa transição: perderam quase todo o pelo, mantendo apenas alguns folículos ao redor do focinho. Em certas espécies, como baleias boreais, esses folículos parecem ter sido reaproveitados como sensores. A perda de genes ligados à queratina capilar em cetáceos é superior à taxa basal observada em outros mamíferos, com muitos desses genes tornando‑se inativos.
Em outros mamíferos aquáticos, como peixes‑boi e hipopótamos, observam‑se processos semelhantes, caracterizando convergência evolutiva: linhas não aparentadas chegam a soluções parecidas quando enfrentam pressões ambientais semelhantes. Os pinípedes ilustram um padrão intermediário: algumas espécies, como os chamados “ursos‑marinhos árticos”, mantêm subpelagem extremamente densa — cerca de 300.000 pelos por polegada quadrada —, enquanto focídeos dependem mais da gordura subcutânea; em elefantes‑marinhos, a camada de gordura pode superar 15 centímetros de espessura.
Em suma, peixes, focas e baleias compartilham o ambiente aquático, mas suas coberturas corporais são soluções evolutivas distintas: escamas e muco nos peixes, pelo originado em terra nos mamíferos e, quando necessário, substituição do pelo por gordura subcutânea em mamíferos marinhos.
Com informações de Super.abril
Nota Editorial: Este conteúdo faz parte da cobertura jornalística do Jornal da Fronteira, feito por humano com ajuda de ferramentas de inteligência artificial, sob revisão de editor humano.
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