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Pesquisadores detectam sertralina no cérebro de tubarões-martelo na costa do Rio de Janeiro

Pesquisadores do Projeto EcoShark, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), encontraram o antidepressivo sertralina no tecido cerebral de tubarões-martelo capturados na costa do estado do Rio de Janeiro. O achado, parte de um estudo ainda não publicado mas já divulgado internamente na UFRJ, revela a presença do princípio ativo do Zoloft e de genéricos em espécies criticamente ameaçadas, Sphyrna lewini e S. zygaena.

O monitoramento dos elasmobrânquios é coordenado por Mariana Batha Alonso, professora do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, com participação de outros cientistas como José Neto e Victor Alves. Os animais foram capturados acidentalmente em redes de pesca no Recreio, na Barra da Tijuca e em Copacabana, em operações realizadas desde 2018 graças à parceria entre pescadores e pesquisadores do projeto.

Segundo a pesquisa, a presença da sertralina nos oceanos está ligada ao descarte via esgoto: o medicamento administrado a pessoas é metabolizado no fígado e excretado pela urina tanto na forma original quanto como metabólitos. Estações de tratamento convencionais não eliminam completamente compostos farmacêuticos, e parte do efluente tratado ou não tratado chega ao ambiente costeiro. No estado do Rio de Janeiro, cerca de 47% do esgoto gerado recebia tratamento efetivo conforme dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS).

Emissários submarinos de Ipanema e da Barra da Tijuca lançam esgoto com tratamento preliminar no mar, liberando moléculas que podem ser absorvidas por peixes e invertebrados pela água ou pela cadeia alimentar. Como predadores de topo, os tubarões acumulam contaminantes presentes na água, sedimento e nas presas.

A sertralina tem afinidade por tecidos ricos em lipídios e pelo sistema nervoso, o que ajuda a explicar sua detecção no cérebro dos animais. A detecção, porém, não é, por si só, prova de alteração comportamental ou fisiológica nos tubarões. Estudos em laboratório com zebrafish expostos a 0,1 µg/L de sertralina — concentração observada em águas costeiras — mostraram hipolocomoção e atraso no aprendizado, com alterações no sistema serotoninérgico.

Achados semelhantes foram reportados fora do país: em março de 2026, pesquisa publicada na revista Environmental Pollution identificou cocaína, cafeína e analgésicos no sangue de 28 de 85 tubarões amostrados perto da ilha de Eleuthera, nas Bahamas. Pesquisadores brasileiros também detectaram antibióticos e opioides em amostras de tubarões, além de alterações fisiológicas que apontam para possíveis efeitos bioquímicos dessas substâncias.

No Brasil, a sertralina é o antidepressivo mais prescrito e, em 2025, as vendas de antidepressivos e estabilizadores de humor cresceram 11% em relação ao ano anterior. Um levantamento nacional indicou que 18,6% mais brasileiros utilizaram medicamentos para saúde mental entre 2022 e 2024, e o consumo de antidepressivos entre adultos de 29 a 58 anos aumentou 12,4% entre 2023 e 2025. Esses números, somados à cobertura incompleta do saneamento, criam um cenário propício à entrada de fármacos no ambiente marinho.

Os autores defendem três frentes de ação: inclusão sistemática do monitoramento de fármacos em protocolos ambientais aplicados a tubarões, raias e cetáceos; modernização das estações de tratamento de esgoto para remoção de micropoluentes farmacêuticos; e ampliação do financiamento à pesquisa em ecotoxicologia marinha. As pesquisas do EcoShark foram financiadas pelo PIBIC-UFRJ, Capes e Faperj, e o SubProjeto EcoShark foi realizado como compensação estabelecida em Termo de Ajustamento de Conduta envolvendo a empresa PRIO e conduzido pelo Ministério Público Federal – MPF/RJ.

O registro de sertralina no sistema nervoso de predadores a poucos quilômetros de áreas urbanas como Copacabana levanta questões sobre os impactos persistentes dos medicamentos humanos no ambiente marinho e na conservação de espécies ameaçadas.

Com informações de Super.abril

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