Cães mumificados de 1.100 anos revelam relação antiga entre humanos e animais no Peru

Cães mumificados de 1.100 anos revelam relação antiga entre humanos e animais no Peru

Dois cães mumificados há cerca de 1.100 anos estão ajudando pesquisadores a compreender melhor a relação entre humanos e animais em antigas comunidades andinas. Os restos mortais foram encontrados no Vale de Moquegua, no sul do Peru, em áreas associadas à cultura Tiwanaku, uma das mais importantes sociedades pré-colombianas da região.

A análise foi conduzida por Susan deFrance, da Universidade da Flórida, e por uma equipe de pesquisadores que estudou os restos de dois cães preservados naturalmente pelas condições ambientais locais. Os animais foram enterrados com cuidado, o que sugere que não eram tratados apenas como presença comum no ambiente doméstico, mas possivelmente como companheiros próximos das pessoas.

O primeiro animal era uma fêmea de pelagem marrom e branca, com menos de um ano de idade quando morreu. Ela foi sepultada no sítio arqueológico de Rio Muerto, colocada sobre uma esteira trançada e possivelmente envolta em barbante. A forma do enterro indica atenção especial no momento da deposição do corpo.

O segundo cão era um filhote com até três meses de idade. Ele foi encontrado em Omo, um centro cerimonial ligado à presença Tiwanaku no Vale de Moquegua. Assim como no outro caso, o sepultamento foi realizado de maneira cuidadosa e próximo a áreas ocupadas por pessoas.

Um dos pontos mais importantes do estudo veio da análise de isótopos nos ossos, dentes e pelos dos animais. Os resultados indicam que os dois cães viveram na região durante toda a vida, sem sinais de deslocamento a partir de outras áreas. Essa informação ajuda a entender não apenas a origem dos animais, mas também sua integração ao cotidiano das comunidades locais.

Cães mumificados de 1.100 anos revelam relação antiga entre humanos e animais no Peru
Foto: deFrance et al. 2026, Antiguidade Latino-Americana

A dieta dos cães também revelou diferenças interessantes. A fêmea encontrada em Rio Muerto consumia plantas e carne em proporção semelhante à alimentação humana da comunidade. Para os pesquisadores, isso indica que ela vivia perto das pessoas e provavelmente recebia restos de comida. Já o filhote sepultado em Omo apresentava uma dieta com maior presença de carne, o que pode sugerir outro tipo de rotina alimentar ou maior busca por alimento fora das áreas residenciais.

Os achados são relevantes porque ainda se sabe pouco sobre o papel dos cães na sociedade Tiwanaku. A cultura floresceu nos Andes centro-sul entre aproximadamente os séculos 6 e 11, com influência em regiões que hoje fazem parte da Bolívia, do Peru e de áreas vizinhas. No caso de Moquegua, os sepultamentos ajudam a mostrar como esses animais estavam presentes tanto em espaços domésticos quanto em ambientes cerimoniais.

Embora os pesquisadores não possam afirmar com certeza se os cães eram vistos como animais de estimação no sentido moderno, os enterros indicam cuidado e intenção. O fato de terem sido sepultados perto de casas e com organização específica sugere algum valor social, simbólico ou afetivo.

A preservação natural dos corpos também torna o estudo especialmente importante. Diferente de esqueletos comuns, os cães mumificados permitem observar detalhes mais amplos, como pelos, posição do corpo e possíveis formas de envolvimento no sepultamento. Esses elementos oferecem uma leitura mais completa sobre a vida e a morte dos animais.

Mais de mil anos depois, os cães mumificados do Peru oferecem uma cena silenciosa, mas expressiva. Eles revelam que a ligação entre humanos e cães não é uma invenção recente. Ao contrário, essa convivência já fazia parte da vida de antigas comunidades andinas, muito antes de o mundo moderno transformar os animais de companhia em membros da família.

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