A chegada humana às Américas foi 7.000 anos antes do que se imaginava

A saga da chegada dos primeiros humanos às Américas sempre foi um dos tópicos mais debatidos e fascinantes na arqueologia. Recentemente, essa narrativa ganhou um novo capítulo com a descoberta de 286 artefatos na Ilha Parsons, Maryland.

As novas evidências sugerem que a migração para as Américas pode ter ocorrido impressionantes 7.000 anos antes do que se acreditava. Esta descoberta não só desafia a cronologia estabelecida, mas também levanta questões intrigantes sobre a migração e a vida dos primeiros habitantes do continente.

A descoberta em questão foi feita pelo geólogo Darrin Lowery, um pesquisador independente que já foi afiliado ao Smithsonian Institution. Lowery, junto com sua equipe, realizou 93 expedições à Ilha Parsons, coletando evidências que sugerem uma ocupação humana muito anterior ao que se pensava. Entre os 286 artefatos encontrados, o mais antigo estava incrustado em carvão, datando de uma época em que grande parte do continente norte-americano estava sob gelo.

No entanto, a técnica de datação utilizada por Lowery, que inclui análise de carbono e estratigrafia, não foi isenta de controvérsias. Alguns cientistas questionam a precisão dessas técnicas e a interpretação dos resultados. A decisão de Lowery de publicar suas descobertas em um manuscrito online de 260 páginas, ao invés de passar pelo tradicional processo de revisão por pares, também gerou debates na comunidade acadêmica.

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Contexto histórico e significado dos estudos

Se as interpretações de Lowery forem confirmadas, a Ilha Parsons pode reescrever a narrativa da pré-história americana. A teoria predominante até então, conhecida como a “Grande Migração”, sugere que os primeiros humanos chegaram à América do Norte há cerca de 15.000 anos, cruzando uma ponte de terra sobre o Estreito de Bering. A descoberta de pontas de projéteis Clovis em diversos locais da América do Norte tem sido considerada uma das principais evidências dessa migração.

Contudo, os artefatos encontrados na Ilha Parsons, junto com outras descobertas recentes como as pegadas em White Sands, Novo México, datadas entre 23.000 e 21.000 anos atrás, desafiam essa narrativa estabelecida. Essas novas evidências sugerem que os primeiros humanos podem ter chegado às Américas muito antes do que se pensava, abrindo novas linhas de investigação sobre as rotas e os métodos de migração.

A própria Ilha Parsons apresenta inúmeros desafios para os arqueólogos. A rápida erosão causada pela subsidência da terra e o aumento do nível do mar ameaçam continuamente as áreas de escavação. A localização dos artefatos agora submersos nas águas da Baía de Chesapeake destaca a urgência de investigar e documentar esses locais antes que desapareçam completamente.

O arqueólogo Sebastien Lacombe, da Universidade de Binghamton, que visitou a Ilha Parsons em 2017, ressaltou a importância de proteger esse frágil registro histórico. Ele afirmou: “A visita reforçou a minha vontade de investir o meu tempo neste período, porque é um registo muito frágil. Corre-se o risco de desaparecer e corremos o risco de [permitir] que esses sites e artefatos percam o seu significado para sempre.”

A jornada de Darrin Lowery

A jornada de Darrin Lowery na arqueologia começou na infância, quando ele explorava a costa de Chesapeake perto de sua casa na Ilha Tilghman, ao sudoeste da Ilha Parsons. Em 1977, aos nove anos de idade, ele encontrou uma ponta de projétil de pedra canelada, semelhante às associadas à cultura Clovis. Esta descoberta casual despertou sua paixão por desvendar os segredos ocultos nas margens da baía.

À medida que envelhecia, Lowery continuou suas explorações, observando os padrões sazonais e a dinâmica dos sedimentos que ajudaram a revelar artefatos antigos. Sua compreensão das forças naturais, como o vento e as ondas, aprimorou sua habilidade de encontrar e interpretar evidências arqueológicas. Cada descoberta reforçava sua convicção de que havia muito mais a ser descoberto sob a superfície das águas da baía.

Descobertas sobre a povoação das Américas

A descoberta em Ilha Parsons, se validada, pode ter profundas implicações para a compreensão da migração humana e das práticas culturais dos primeiros habitantes das Américas. Ela questiona a teoria predominante da “Grande Migração” e sugere que os primeiros humanos poderiam ter utilizado rotas alternativas para chegar ao continente, possivelmente viajando ao longo das margens do Pacífico ou através de outras passagens ainda desconhecidas.

Além disso, a descoberta destaca a importância de tecnologias avançadas e abordagens inovadoras na arqueologia. As técnicas de datação e análise utilizadas por Lowery, apesar das controvérsias, demonstram a necessidade de métodos diversificados e adaptáveis para lidar com os desafios específicos de cada sítio arqueológico.

A descoberta dos artefatos na Ilha Parsons representa um potencial ponto de inflexão na arqueologia americana. As evidências sugerem uma presença humana muito anterior ao que se acreditava, desafiando as teorias estabelecidas e abrindo novas possibilidades para a investigação arqueológica. O trabalho de Darrin Lowery e sua equipe destaca a importância de perseverança, inovação e colaboração na busca por compreender o passado humano.

Enquanto debates sobre a validade dos métodos de datação continuam, a urgência de proteger e investigar esses sítios arqueológicos não pode ser subestimada. As margens da Baía de Chesapeake guardam segredos que, se descobertos a tempo, podem reescrever a história da migração humana para as Américas e proporcionar uma visão mais rica e complexa da pré-história do continente. A saga dos primeiros americanos continua, e com ela, a busca incessante por respostas e a compreensão de nosso passado compartilhado.



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