Ossadas de Neandertais revelam os mais antigos vírus humanos já encontrados

A descoberta de restos mortais de Neandertais na caverna Chagyrskaya, na Rússia, possibilitou a revelação de novos aspectos da vida destes, até então desconhecidos sobre a saúde e as doenças que afligiam nossos ancestrais pré-históricos.

Datados de 50.000 anos atrás, esses restos revelaram material genético de três vírus prevalentes ainda hoje: adenovírus, herpesvírus e papilomavírus.

Esses achados, conduzidos pela equipe do Dr. Marcelo Briones da Universidade Federal de São Paulo e publicados na revista bioRxiv, representam os mais antigos vírus humanos já identificados, superando um vírus de 31.000 anos encontrado em dentes de Homo sapiens na Sibéria.

Em 2022, pesquisadores descobriram esqueletos de Neandertais na caverna Chagyrskaya, na Rússia, contendo material genético de vírus que afetam humanos até hoje. Adenovírus, herpesvírus e papilomavírus foram identificados nesses restos, marcando a mais antiga evidência de vírus humanos. Esses achados são particularmente notáveis, pois fornecem uma janela única para a saúde dos Neandertais e as doenças que eles enfrentavam.

Os vírus encontrados nos restos Neandertais são familiares para nós. O adenovírus pode causar sintomas de resfriado e gastroenterite, o herpesvírus está associado a condições como mononucleose e esclerose múltipla, e o papilomavírus é conhecido por causar verrugas genitais e câncer cervical.

A presença desses vírus sugere que os Neandertais enfrentavam desafios de saúde semelhantes aos humanos modernos, aumentando a nossa compreensão sobre a complexidade de suas vidas e as possíveis causas de sua extinção.

Paleogenética

A paleogenética, estudo de DNA antigo, tem sido fundamental para desvendar mistérios sobre nossos ancestrais. Contudo, a preocupação com a contaminação é válida.

Os pesquisadores compararam as sequências genéticas virais antigas com as modernas para garantir a autenticidade dos achados. A ausência de correspondências entre as cepas virais antigas e recentes fortalece a confiança na autenticidade desses vírus encontrados nos restos Neandertais.

Garantir que os achados não fossem contaminados por material genético moderno foi crucial. Os cientistas utilizaram técnicas avançadas para comparar as sequências virais antigas com as contemporâneas, descartando a possibilidade de contaminação. Isso reforça a validade dos resultados e confirma a presença dos vírus em Neandertais, proporcionando uma visão autêntica de sua saúde.

Interação entre Homo Sapiens e Neandertais

A descoberta de vírus em Neandertais também levanta questões sobre a interação entre Homo sapiens e Neandertais. É sabido que houve interbreeding entre as duas espécies, resultando em cerca de 2% do DNA de indivíduos de ascendência europeia ou asiática sendo de origem Neandertal.

Esse intercâmbio genético sugere que também poderia haver troca de patógenos, incluindo vírus, entre essas populações, influenciando suas respectivas dinâmicas de saúde e doença.

A extinção dos Neandertais há cerca de 40.000 anos é um dos grandes mistérios da antropologia. Fatores como mudanças climáticas e competição com Homo sapiens são frequentemente citados, mas o papel das doenças é uma área que merece mais atenção.

A presença de adenovírus, herpesvírus e papilomavírus nos restos Neandertais sugere que as doenças poderiam ter desempenhado um papel significativo em sua extinção, possivelmente enfraquecendo suas populações e facilitando a dominação dos Homo sapiens.

Estudar esses vírus antigos pode oferecer insights valiosos para a saúde moderna. A comparação dos traços reprodutivos e patogênicos desses vírus com suas contrapartes contemporâneas pode ajudar a entender melhor sua evolução e impacto na saúde humana. Além disso, essa pesquisa pode informar o desenvolvimento de tratamentos e vacinas mais eficazes para doenças virais.

Restauração de vírus antigos

Apesar dos avanços, restaurar vírus antigos para estudo apresenta desafios significativos. O DNA viral é notoriamente frágil e difícil de reconstituir.

Marcelo Briones expressou ceticismo sobre a viabilidade e objetivo de reviver esses vírus, ressaltando a importância de entender como o DNA viral se deteriora e a complexidade de reconstruir genomas virais completos. Além disso, as interações entre vírus e hospedeiros em ambientes antigos diferem significativamente dos modernos, complicando ainda mais essa tarefa.

A descoberta de vírus humanos antigos em restos Neandertais na caverna Chagyrskaya é um marco na paleogenética, oferecendo novas perspectivas sobre a saúde e doenças de nossos ancestrais.

Esses achados não apenas aumentam nossa compreensão da vida dos Neandertais, mas também fornecem uma base para futuras pesquisas sobre a evolução dos vírus e suas implicações para a saúde humana.



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