Um grupo formado por apenas cinco bovinos deixados na Ilha Amsterdam, território vulcânico francês localizado no sul do Oceano Índico, deu origem a um rebanho de aproximadamente 2 mil animais ao longo de várias gerações. O caso, registrado a partir de 1871, continua sendo analisado por pesquisadores por envolver sobrevivência, reprodução e adaptação em condições de isolamento extremo.
Segundo informações divulgadas pela Nature, os animais foram abandonados na ilha por um colono francês identificado como Heurtin. Na avaliação científica, uma população inicial tão reduzida normalmente estaria sujeita a um forte gargalo genético, condição em que a baixa diversidade hereditária aumenta o risco de doenças, infertilidade e desaparecimento do grupo ao longo do tempo.
Apesar desse cenário, os bovinos conseguiram se reproduzir e ampliar rapidamente a população. Em meados do século XX, o rebanho já era estimado em cerca de 2 mil indivíduos. A ausência de predadores naturais na ilha, que possui aproximadamente 55 quilômetros quadrados, contribuiu para a expansão dos animais.
Durante décadas, pesquisadores buscaram entender como uma população fundada por tão poucos indivíduos conseguiu sobreviver por tanto tempo. Além do isolamento geográfico, os bovinos enfrentaram condições ambientais específicas e passaram por alterações físicas e comportamentais em relação aos animais domesticados de origem.
Um estudo conduzido por cientistas do Instituto Nacional Francês de Pesquisa para Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente, o INRAE, e da Universidade de Liège, na Bélgica, analisou amostras de DNA coletadas antes da eliminação do rebanho. Os resultados indicaram que os bovinos passaram por um gargalo genético intenso, mas de curta duração. Essa característica pode ter permitido a recuperação populacional sem os efeitos mais graves normalmente associados a populações isoladas por longos períodos.
A pesquisa também identificou uma composição genética incomum nos animais. Além de linhagens bovinas europeias, os bovinos apresentavam contribuição genética de zebuínos do Oceano Índico. Essa combinação pode ter favorecido a adaptação ao ambiente da ilha. Mesmo com níveis elevados de consanguinidade, a perda de diversidade genética foi menor do que se esperava inicialmente.
Outro ponto observado pelos cientistas foi a redução do tamanho corporal dos animais. Estudos publicados na revista Scientific Reports indicam que os bovinos da Ilha Amsterdam ficaram cerca de 25% menores do que seus ancestrais. O fenômeno é conhecido como nanismo insular e ocorre em algumas espécies que vivem isoladas em ilhas, especialmente quando há limitação de recursos e ausência de predadores.
Apesar da relevância científica, o rebanho passou a representar um problema ambiental. O pastoreio intenso afetou a vegetação nativa e colocou em risco espécies endêmicas, entre elas o albatroz-de-Amsterdam. Diante dos impactos ao ecossistema, autoridades francesas iniciaram programas de controle populacional nas décadas de 1980 e 1990.
Os últimos bovinos da Ilha Amsterdam foram eliminados em 2010, dentro das ações de restauração ambiental do território. Embora o rebanho não exista mais, amostras biológicas preservadas antes da erradicação continuam sendo utilizadas em estudos sobre genética, evolução e adaptação animal.
O caso é considerado relevante para a biologia por mostrar como uma população iniciada com apenas cinco indivíduos conseguiu se expandir em um ambiente isolado, contrariando previsões associadas à baixa diversidade genética e aos riscos de extinção em grupos pequenos.

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Heloisa Lima é redatora de artigos sobre variedades, curiosidades, esportes, culinária e cultura.
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