Verity: o tipo de livro que te faz ler rápido e desconfiar de tudo

Verity: o tipo de livro que te faz ler rápido e desconfiar de tudo

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Você começa “Verity” achando que vai acompanhar uma escritora em apuros, alguém que pegou um trabalho grande demais para o próprio fôlego, e termina percebendo que o livro é sobre outra coisa: sobre o preço de entrar na casa de alguém, abrir gavetas que não são suas e aceitar uma intimidade que não foi oferecida, foi invadida. Lowen Ashleigh está quebrada, insegura, vivendo uma fase em que pagar as contas já exige criatividade. Quando recebe a proposta para concluir uma série de sucesso no lugar de Verity Crawford, autora consagrada que ficou incapacitada após um acidente, ela entende o recado: é oportunidade única, mas vem com o tipo de risco que não aparece no contrato.

A primeira decisão já cria tensão. Para escrever como Verity, Lowen precisa conhecer o método da autora, revisar anotações, rascunhos, arquivos. Isso significa ir até a casa dos Crawford e circular por um espaço que mistura luxo, silêncio e um clima de luto mal resolvido. Jeremy, o marido, é quem conduz a negociação com uma cordialidade que parece firme demais para ser casual. Ele quer o trabalho pronto, quer a franquia viva, quer o projeto funcionando, e coloca Lowen ali como quem encaixa uma peça no lugar de outra, sem tempo para delicadeza. Lowen aceita porque precisa, mas também porque percebe que há algo naquele cenário que não fecha. E “Verity” vive disso: do incômodo de perceber que as coisas estão um pouco fora do eixo, o tempo todo.

O livro não depende de ação. Ele depende de ambiente. A casa é grande, mas não dá sensação de espaço; dá sensação de vigilância. Há cômodos que parecem proibidos mesmo sem placa. Há rotinas em que o silêncio pesa. Há uma criança pequena, Crew, que transforma o cotidiano em algo mais imprevisível, porque criança não respeita clima de suspense, criança entra, pergunta, some, reaparece, e isso aumenta o desconforto de Lowen. A presença de Verity, mesmo sem falar, mesmo sem agir como alguém “presente”, é constante. E é aí que Colleen Hoover acerta o tom: ela faz a ausência virar personagem. Verity está ali como uma sombra doméstica, um nome que se evita dizer com naturalidade, uma figura que ainda manda no espaço mesmo quando não controla mais nada.

Lowen, como narradora, não é heroína. Ela não chega com coragem e plano. Ela chega com medo e curiosidade. É uma narradora que tenta ser racional, mas é puxada pela necessidade de entender onde se meteu. E o motor do livro é justamente essa mistura de vulnerabilidade com intromissão. Em vez de investigar como um detetive, Lowen investiga como alguém que está sozinha demais para ignorar o que encontra. Ela quer fazer o trabalho, mas quer, principalmente, entender o que acontece naquele lugar quando ninguém está olhando.

O ponto de virada, e quem leu sabe que é aqui que o livro amarra o leitor na cadeira, é a descoberta do manuscrito. Lowen encontra um texto escondido: uma espécie de autobiografia de Verity, escrita sem intenção de publicação, carregada de confissões e detalhes que fazem o sangue gelar. E a grande sacada não é só o conteúdo, mas o formato. “Verity” vira um livro dentro do livro. Você lê Lowen vivendo a casa e, ao mesmo tempo, lê as páginas que Lowen lê, como se a história estivesse te entregando duas versões do mesmo mundo: a versão observada e a versão narrada por alguém que pode estar contando a verdade… ou construindo a mentira mais eficiente possível.

Esse manuscrito funciona como uma lâmina. Cada capítulo que Lowen lê muda a forma como ela interpreta o comportamento de Jeremy, as reações de Verity, os espaços da casa, as lembranças sobre as filhas do casal. E é aqui que o romance fica mais cruel: ele não pede apenas que você julgue Verity. Ele pede que você julgue todo mundo, inclusive Lowen, inclusive você mesmo, porque o livro te coloca na posição de cúmplice. Você está lendo algo que não deveria existir para você. E, ainda assim, não consegue parar.

Verity: o tipo de livro que te faz ler rápido e desconfiar de tudo

Jeremy é outro acerto do texto. Ele é escrito de um jeito que provoca ambivalência. Há momentos em que ele parece um homem quebrado, tentando sustentar o que sobrou da família. Em outros, ele parece alguém que aprendeu a performar gentileza como controle. O romance não te dá certeza fácil. Ele te dá cenas. Conversas curtas. Olhares que duram um segundo a mais. Pequenos gestos de cuidado que podem ser afeto… ou estratégia. E quanto mais Lowen se envolve, mais “Verity” vira um jogo de proximidade: quem está se aproximando de quem, e com qual intenção.

Colleen Hoover tem um talento específico aqui: ela cria tensão com coisas chatas e comuns. Uma porta que não deveria estar aberta. Um som no corredor. Um papel no lugar errado. Um quarto onde ninguém entra. O suspense se alimenta de rotina doméstica, não de perseguição. É o tipo de livro em que uma escada já parece um problema. Um jantar pode virar ameaça. Uma madrugada pode virar confissão. E o leitor vai entrando nisso sem perceber, porque o texto é simples, direto, com ritmo de thriller: termina capítulo no ponto certo, troca de cena quando você queria respirar, e pronto, lá se foi mais um pedaço da noite.

A força do livro também está em como ele mistura três camadas que raramente convivem tão bem: romance, horror psicológico e thriller. Não é um “terror” clássico, com monstros e sangue. É um terror de cabeça, feito de sugestão e dúvida. O medo aqui é o medo de estar enganado, de estar sendo manipulado, de amar a pessoa errada, de morar com alguém que você não conhece. E isso, quando encaixa, incomoda muito mais do que susto.

Conforme a história avança, o manuscrito deixa de ser apenas uma “descoberta” e passa a ser um veneno. Lowen começa a decidir o que faz com aquela informação. Ela guarda? Ela conta? Ela usa? Ela se protege? E o livro começa a falar de ética sem fazer discurso: ele mostra uma pessoa comum diante de uma escolha suja, e deixa você sentindo o peso disso. O texto não pede que você admire Lowen. Ele pede que você entenda o tipo de coisa que alguém faz quando está com medo e apaixonado e cercado por uma história que não sabe se é real.

E aí chega o final. “Verity” é famoso por um motivo: ele não entrega conforto. Ele entrega impacto. O desfecho não é um laço bonito, é uma facada bem colocada no seu senso de certeza. A história te empurra para uma pergunta simples e cruel: quem está dizendo a verdade? Só que a pergunta não vem sozinha. Ela vem com o detalhe que mais irrita e mais fascina: as versões possíveis parecem plausíveis demais. E é por isso que o livro rende discussão, teoria, briga de grupo de leitura e aquela sensação de “preciso falar disso com alguém agora”.

Se você quer um livro para “curtir a trama”, “Verity” funciona. Mas ele funciona melhor quando você percebe que o que está em jogo não é só um segredo. É a facilidade com que a gente se deixa conduzir por narrativa, por carisma, por dor, por culpa, por desejo. É um livro sobre escrita, sim, mas também sobre controle: quem controla a história controla a realidade de quem está lendo. E Colleen Hoover brinca com isso com uma eficiência quase irritante, porque quando você fecha o livro, você não fecha junto a pergunta. Você fecha o objeto, mas a história continua rodando na cabeça, procurando uma resposta que o texto não se compromete a te dar.

  • Livro: Verity
  • Autor (a): Colleen Hoover
  • Ano: 2018
  • Gênero: Romance, Suspense, Romance de amor, Ficção
  • Avaliação: 9,5/10 
  • ★★★★★

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