Maria Antonieta chegou ao local de sua execução em Paris na manhã de 16 de outubro de 1793. Condenada por crimes contra o Estado durante a Revolução Francesa, a antiga rainha tinha 37 anos e enfrentava o desfecho de uma trajetória marcada pelo luxo da corte, pela impopularidade e pela queda da monarquia.
As últimas palavras tradicionalmente atribuídas a ela, porém, não foram um discurso político, uma defesa de sua inocência ou uma declaração contra os revolucionários. Ao subir para o local da execução, Maria Antonieta teria pisado acidentalmente no pé do carrasco e respondido: “Perdoe-me, senhor. Não foi minha intenção”.
A frase ficou conhecida por revelar um gesto de educação em um momento de extrema pressão. O pedido de desculpas não estava relacionado à condenação, mas ao incidente ocorrido durante seus últimos passos.
Uma carta escrita poucas horas antes
Antes da execução, Maria Antonieta escreveu uma carta destinada à cunhada, Madame Élisabeth, irmã de Luís XVI. O documento foi redigido por volta das 4h30 daquela manhã, enquanto ela estava presa na Conciergerie.
Na mensagem, a antiga rainha reafirmou sua inocência, declarou que perdoava seus adversários e demonstrou preocupação com os filhos. Também lamentou a separação definitiva da família e apresentou orientações para que os filhos mantivessem uma relação de união.
A carta, atualmente preservada pelos Arquivos Nacionais da França, não chegou imediatamente à destinatária. O conteúdo tornou-se um dos principais documentos sobre os últimos pensamentos de Maria Antonieta.

Por que Maria Antonieta foi condenada?
Maria Antonieta nasceu em Viena, em 1755, e era filha da imperatriz Maria Teresa da Áustria. Casou-se com o futuro Luís XVI ainda adolescente e tornou-se rainha da França em 1774.
Sua origem austríaca alimentava desconfianças em parte da sociedade francesa. Com o agravamento da crise econômica e política, ela passou a ser retratada como símbolo dos gastos excessivos e do afastamento da monarquia em relação à população.
Embora mantivesse um estilo de vida privilegiado, os gastos pessoais da rainha representavam apenas uma parcela dos graves problemas financeiros do Estado francês. A imagem de responsável direta pela crise foi ampliada por panfletos, caricaturas e rumores que circulavam no período.
Maria Antonieta também teve sua reputação atingida pelo chamado Caso do Colar de Diamantes. Apesar de não ter participado do golpe, o escândalo fortaleceu a percepção pública de que a corte era corrupta e irresponsável.
A tentativa de fuga da família real em 1791 agravou a situação. Luís XVI, Maria Antonieta e os filhos foram reconhecidos e detidos em Varennes quando tentavam deixar Paris. O episódio aumentou as acusações de que a monarquia conspirava contra a Revolução.
Durante o avanço revolucionário, Maria Antonieta manteve contato com representantes estrangeiros e buscou apoio de monarquias europeias. Para os revolucionários, essas comunicações indicavam uma tentativa de obter intervenção militar contra a França.
A monarquia foi abolida em setembro de 1792, e Luís XVI foi executado em janeiro do ano seguinte. Maria Antonieta permaneceu presa e, posteriormente, foi transferida para a Conciergerie.
Seu julgamento começou em outubro de 1793 no Tribunal Revolucionário. Ela foi acusada de colaborar com potências estrangeiras, favorecer os inimigos da França e participar de ações contra a segurança do Estado.
Ao final do processo, Maria Antonieta foi considerada culpada de alta traição e condenada à morte. A execução ocorreu na Praça da Revolução, atual Praça da Concórdia, em Paris.
A frase que ela provavelmente nunca disse
A imagem de Maria Antonieta também foi associada à frase “Se não têm pão, que comam brioches”. Não existem provas confiáveis de que a rainha tenha pronunciado essas palavras.
Uma frase semelhante apareceu anteriormente em uma obra do filósofo Jean-Jacques Rousseau, escrita quando Maria Antonieta ainda era criança. A atribuição posterior ajudou a transformá-la em símbolo da suposta indiferença da aristocracia diante da pobreza.
As últimas palavras atribuídas à antiga rainha apresentam um contraste com essa imagem construída ao longo dos anos. Em vez de uma manifestação arrogante ou política, o registro mostra um pedido de desculpas por um ato acidental.
O episódio não elimina as decisões políticas de Maria Antonieta nem sua resistência a determinadas mudanças durante a Revolução Francesa. No entanto, ajuda a compreender como sua personalidade e sua história foram frequentemente reduzidas a frases, boatos e representações produzidas por aliados e adversários.
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Apaixonada pela literatura brasileira e internacional, Heloísa Montagner Veroneze é reatora de artigos locais e regionais, com experiência em temas diversos, especialmente sobre livros, arqueologia e curiosidades.
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