Arqueólogos poloneses identificaram uma tumba com cerca de 4.000 anos no deserto de Bayuda, no Sudão, em uma descoberta considerada relevante para o estudo do período Kerma, uma das civilizações mais antigas e estruturadas da Núbia. O sepultamento apresenta bom estado de conservação e oferece dados importantes sobre práticas funerárias, aspectos biológicos do indivíduo enterrado, condições ambientais da época e organização social da região.
A pesquisa foi conduzida por uma equipe coordenada por Henryk Paner, vinculada ao Centro Polonês de Arqueologia Mediterrânea da Universidade de Varsóvia. O grupo realiza escavações sistemáticas no Sudão central há mais de seis anos, ampliando o conhecimento científico sobre áreas historicamente pouco exploradas do país.
A tumba foi datada do período do Reino de Kerma, que se estendeu aproximadamente entre 2500 e 1500 a.C. Durante esse intervalo, Kerma consolidou-se como um dos principais centros políticos e econômicos do Vale do Nilo ao sul do Egito, exercendo influência significativa sobre rotas comerciais e territórios estratégicos da região.
Análises osteológicas indicam que o indivíduo sepultado era um homem com idade estimada entre 30 e 40 anos e altura aproximada de 1,64 metro. O esqueleto apresenta indícios de constituição física robusta e marcas associadas a esforço físico contínuo. De acordo com os pesquisadores, esses elementos sugerem envolvimento em atividades laborais intensas, possivelmente ligadas à criação de animais em ambiente semidesértico.
Evidências encontradas no sítio apontam para uma alimentação restrita, porém com elevado teor proteico, além de contato frequente com rebanhos. Essas características são compatíveis com comunidades que ocupavam áreas próximas às margens cultiváveis do Nilo, onde a pecuária desempenhava papel relevante na subsistência.
A sepultura possui formato oval irregular e foi escavada de maneira rasa, adaptando-se ao terreno rochoso do deserto. O corpo foi depositado em posição dorsal, com a cabeça voltada para o leste e levemente inclinada para o norte. As pernas estavam fortemente flexionadas e torcidas para a direita, com os pés apoiados na região pélvica. Essa disposição corporal é identificada em sepultamentos mais antigos do período Kerma e está associada a tradições funerárias específicas da cultura núbia.
Atrás do corpo foram localizados dois recipientes cerâmicos confeccionados manualmente: uma jarra de porte médio com bico e uma tigela invertida. Próximo ao gargalo da jarra, os arqueólogos encontraram 82 contas de faiança, possivelmente pertencentes a um colar utilizado no momento do sepultamento. A presença desses objetos indica a adoção de práticas rituais e simbolismos associados à morte e à identidade social do indivíduo.
No interior da jarra foram identificados restos de plantas carbonizadas, fragmentos de ossos animais, coprólitos e vestígios de besouros. O recipiente, contudo, não apresentava sinais diretos de exposição ao fogo. A análise sugere que resíduos provenientes de uma fogueira, possivelmente relacionada a um banquete funerário, foram depositados intencionalmente no interior da jarra após a extinção das chamas. A interpretação dos pesquisadores aponta para práticas rituais que envolviam refeições comunitárias e a deposição simbólica de restos alimentares junto ao falecido.
A cerâmica desempenhava papel central nas práticas funerárias do período Kerma. Além da função utilitária, os recipientes eram elementos de representação simbólica. Evidências arqueológicas indicam que vasos podiam ser quebrados, perfurados ou invertidos de forma deliberada como parte do ritual, ato interpretado como forma de desativação simbólica do objeto, em consonância com concepções de morte, transformação e culto aos ancestrais.
A análise ambiental do local onde se encontra o cemitério acrescenta informações relevantes ao estudo. Embora atualmente a região do deserto de Bayuda apresente clima árido, investigações sedimentares e botânicas indicam que, por volta de 2000 a.C., o ambiente era significativamente mais úmido. A paisagem provavelmente era composta por áreas de savana com gramíneas, arbustos e árvores dispersas, condições que favoreciam a atividade pastoril.
Os resultados da pesquisa foram publicados na revista científica Azania: Archaeological Research in Africa, especializada em estudos arqueológicos africanos. O material reúne evidências biológicas, culturais e ambientais que contribuem para a compreensão integrada das dinâmicas sociais da antiga Núbia.
O Reino de Kerma é reconhecido como uma das primeiras sociedades urbanas da África e considerado o primeiro estado centralizado da antiga Núbia. Localizado nas proximidades da Terceira Catarata do Nilo, o reino destacou-se por construções monumentais em tijolos de barro, organização hierárquica consolidada e redes comerciais que conectavam regiões da África subsaariana ao Egito.
Registros históricos indicam que, em determinados períodos do Império Médio egípcio, Kerma exerceu poder político e militar comparável ao de seus vizinhos do norte. A cultura desenvolveu práticas religiosas próprias, estilos artísticos característicos e tradições funerárias que diferiam das egípcias, ainda que houvesse intercâmbio cultural entre as duas regiões.
A tumba identificada no deserto de Bayuda representa uma fonte significativa de dados sobre o cotidiano no período Kerma. As informações obtidas a partir da análise osteológica, dos objetos associados ao sepultamento e do contexto ambiental contribuem para a reconstrução das condições de vida, trabalho, alimentação e crenças das comunidades núbias antigas.
Pesquisas arqueológicas em curso no Sudão têm ampliado a compreensão sobre o papel da Núbia na formação das civilizações africanas antigas. Descobertas como essa reforçam a relevância histórica da região e indicam que o território ainda abriga importantes vestígios capazes de aprofundar o conhecimento científico sobre sociedades que exerceram influência política, econômica e cultural no Vale do Nilo.




