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Arqueólogos desenterram trombeta de guerra da Idade do Ferro mais completa já encontrada

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Arqueólogos realizaram uma descoberta considerada excepcional no oeste de Norfolk, na Inglaterra, ao desenterrar a trombeta de guerra da Idade do Ferro mais completa já encontrada em território europeu.

O artefato, conhecido como carnyx, é feito de bronze e foi localizado junto a um estandarte de batalha com cabeça de javali e outros objetos militares, em uma área associada historicamente à tribo celta Iceni, liderada pela rainha Boudica durante a revolta contra o Império Romano no século I d.C.

A descoberta ocorreu no verão passado, durante escavações preventivas realizadas antes da construção de um conjunto habitacional. Os trabalhos foram conduzidos pela equipe da Pre-Construct Archaeology.

O diretor executivo da empresa, Mark Hinman, afirmou que se trata de uma das descobertas mais relevantes de sua carreira, destacando que, em mais de quatro décadas de atuação na arqueologia, nunca havia encontrado um conjunto semelhante.

Este é apenas o terceiro carnyx identificado na Grã-Bretanha, mas o estado de conservação diferencia o achado de Norfolk de todos os outros já encontrados na Europa. O instrumento preserva o sino, a cabeça e ambas as orelhas, elementos que normalmente se perderam ou foram removidos em descobertas anteriores.

Evidências de restauração indicam que o carnyx foi utilizado e valorizado por um longo período antes de ser enterrado.

O carnyx tinha função estratégica no contexto da guerra. Produzido em formato de animal, com feições agressivas, era montado em um longo tubo e tocado acima da cabeça dos guerreiros. Relatos de autores gregos e romanos da Antiguidade descrevem o efeito sonoro desses instrumentos como perturbador e intimidador no campo de batalha.

O historiador Diodoro Sículo, no século I a.C., registrou que os celtas produziam sons ásperos e estridentes, adequados ao ambiente de conflito.

Especialistas destacam a importância científica do achado. Fraser Hunter, curador da Idade do Ferro e do período romano no Museu Nacional da Escócia, classificou a descoberta como extraordinária e afirmou que ela contribuirá de forma significativa para a compreensão das práticas militares e simbólicas das sociedades celtas.

O local da descoberta reforça sua relevância histórica. A área corresponde ao núcleo do território dos Iceni, povo que ganhou destaque sob a liderança de Boudica durante a rebelião contra a ocupação romana, ocorrida entre os anos 60 e 61 d.C. O conjunto de artefatos também inclui cinco umbos de escudo e um objeto de ferro ainda não identificado, todos datados do século I d.C., período diretamente relacionado aos conflitos entre celtas e romanos na região.

Ainda não está claro se os objetos foram enterrados pelos próprios Iceni ou se pertenciam a forças adversárias. Essa questão será analisada por arqueólogos e conservadores ao longo do processo de estudo detalhado do material. A qualidade e o nível de elaboração dos artefatos indicam que eram conhecidos e possivelmente utilizados por indivíduos de alto status dentro das comunidades locais.

O estandarte com cabeça de javali é considerado ainda mais raro do que o próprio carnyx. Trata-se do primeiro exemplar desse tipo já identificado na Grã-Bretanha. Produzidos a partir de lâminas finas de bronze, esses estandartes funcionavam como pontos de referência para as tropas durante os combates.

O javali, segundo especialistas, era um símbolo associado à força e à ferocidade, características valorizadas no contexto da guerra.

A conservação do conjunto apresenta desafios significativos. Os objetos são extremamente frágeis após cerca de dois mil anos enterrados. Para evitar danos, todo o material foi retirado do local em um único bloco de solo e submetido a escaneamento detalhado, permitindo o mapeamento preciso da posição de cada item antes do início do processo de remoção e preservação.

O achado foi comunicado a um legista, que irá determinar seu enquadramento legal conforme a Lei do Tesouro de 1996. A Historic England coordena os trabalhos de pesquisa e conservação em parceria com a Pre-Construct Archaeology, o Norfolk Museums Service e o Museu Nacional da Escócia.

Para os especialistas envolvidos, a descoberta oferece uma oportunidade inédita de investigar objetos raros e compreender as circunstâncias que levaram ao seu enterramento há cerca de dois milênios.

A descoberta será apresentada ao público no programa “Digging for Britain”, da BBC Two, em episódio previsto para ir ao ar em 14 de janeiro de 2026, às 21h. A exibição promete revelar detalhes inéditos sobre os artefatos e lançar nova luz sobre a história das comunidades celtas que habitaram a região de Norfolk durante a Idade do Ferro.

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