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Toda vez que você lembra, sua memória pode mudar

O passado que se transforma cada vez que é lembrado

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Costumamos acreditar que a memória é um arquivo fiel do que vivemos. Como se o cérebro armazenasse fatos em gavetas intactas, prontas para serem abertas. Mas a neurociência mostra que não é bem assim. Cada vez que relembramos um evento, ele pode ser alterado. A lembrança não é apenas recuperada. Ela é reconstruída. E, nesse processo, pode ganhar novos detalhes ou perder antigos. O fenômeno é conhecido como reconsolidação da memória. Ele revela que recordar é, de certa forma, recriar. E que o passado guardado na mente não é tão estático quanto parece.

A ideia de que a memória pode ser modificada a cada evocação começou a ganhar força no fim do século XX. Pesquisadores perceberam que, ao reativar uma lembrança, o cérebro a torna temporariamente instável.

Nesse período, a memória pode sofrer interferências antes de ser armazenada novamente.

Como funciona a reconsolidação

Quando vivenciamos um evento, o cérebro passa por um processo chamado consolidação. Informações sensoriais e emocionais são organizadas e armazenadas, principalmente em estruturas como o hipocampo.

Durante muito tempo, acreditou-se que, após consolidada, a memória tornava-se fixa. Contudo, experimentos demonstraram que, ao ser relembrada, ela retorna a um estado flexível.

Esse estado transitório permite atualizações. Novas informações podem ser incorporadas. Emoções presentes no momento da lembrança também podem influenciar o conteúdo.

Após essa fase, a memória é novamente armazenada — mas já não é exatamente a mesma.

Por que o cérebro faz isso?

A modificação constante das memórias não é um erro do sistema. É uma estratégia adaptativa.

O cérebro prioriza relevância e contexto atual. Atualizar lembranças permite integrar novas experiências e ajustar interpretações.

Se uma situação semelhante ocorre no presente, a memória anterior pode ser adaptada para melhor orientar decisões futuras.

Essa plasticidade cognitiva é essencial para a aprendizagem e para a adaptação social.

A memória, portanto, não é um vídeo arquivado, mas uma narrativa dinâmica.

O papel das emoções

Emoções desempenham papel central na modificação das lembranças. Eventos marcados por medo, alegria intensa ou tristeza tendem a ser mais vívidos.

Estruturas como a amígdala cerebral interagem com o hipocampo, fortalecendo determinadas memórias.

No entanto, ao relembrar um evento emocional, o estado afetivo atual pode alterar a percepção original.

Uma lembrança feliz pode ganhar tonalidade nostálgica. Um episódio neutro pode tornar-se dramático se reinterpretado sob nova perspectiva.

A memória emocional é especialmente sensível à reconsolidação.

Memórias falsas e influência externa

A possibilidade de alteração abre espaço para fenômenos como memórias falsas.

Estudos conduzidos pela psicóloga Elizabeth Loftus demonstraram que sugestões externas podem influenciar lembranças.

Em experimentos controlados, participantes passaram a acreditar em eventos que jamais ocorreram, após exposição a informações sugestivas.

Isso não significa que todas as memórias sejam frágeis, mas evidencia que a mente é suscetível a interferências.

Testemunhos oculares, por exemplo, podem sofrer distorções involuntárias.

A ciência e os limites da recordação

A neurociência contemporânea utiliza técnicas de imagem cerebral para estudar o processo de reconsolidação.

Pesquisas indicam que proteínas específicas participam da estabilização das memórias após sua reativação.

Em laboratório, bloquear determinadas vias químicas pode impedir que a memória se reconsolide, enfraquecendo-a.

Esse conhecimento abre caminho para possíveis aplicações terapêuticas, especialmente no tratamento de traumas.

Transtornos como estresse pós-traumático podem se beneficiar de intervenções que alterem a carga emocional associada a lembranças dolorosas.

O que permanece estável?

Apesar da plasticidade, nem todas as memórias são igualmente maleáveis.

Fatos repetidos e reforçados ao longo do tempo tendem a ser mais resistentes a alterações.

Além disso, memórias procedurais — como andar de bicicleta — seguem circuitos neurais distintos e são menos suscetíveis à modificação.

O cérebro combina estabilidade e flexibilidade.

Essa dualidade garante tanto continuidade de identidade quanto capacidade de adaptação.

O impacto na vida cotidiana

Compreender que a memória pode mudar altera a forma como encaramos discussões familiares ou divergências de relatos.

Duas pessoas podem recordar o mesmo evento de maneiras diferentes, sem que nenhuma esteja mentindo.

Cada evocação pode ter sido reconstruída com nuances próprias.

Isso reforça a importância de registros documentais em contextos jurídicos e históricos.

Mas também convida à empatia nas relações interpessoais.

Memória, identidade e narrativa

A memória é parte fundamental da identidade. Nossas experiências moldam quem somos. Se as lembranças podem ser modificadas, nossa narrativa pessoal também pode evoluir. Essa característica permite ressignificar acontecimentos passados. Eventos traumáticos podem ganhar novos significados ao longo do tempo. A mente humana possui extraordinária capacidade de reconstrução.

O passado que vive no presente

Recordar não é simplesmente revisitar o que já aconteceu.

É reinterpretar sob a luz do presente.

A cada evocação, pequenas alterações podem ocorrer.

Às vezes imperceptíveis, mas cumulativas.

A memória é viva, dinâmica e em constante atualização.

E essa maleabilidade é parte essencial do que nos torna humanos.

Lembrar é reconstruir

A memória não é um arquivo imutável guardado no cérebro. Ela passa por reconsolidação cada vez que é evocada. Nesse processo, pode ser modificada por novas informações e emoções. A plasticidade permite adaptação e aprendizagem. Mas também abre espaço para distorções e memórias falsas. A ciência mostra que recordar é reconstruir. O passado permanece vivo na mente. E se transforma sempre que volta à consciência.

Toda vez que você lembra, sua memória pode mudar

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