Estudo revela sepultamentos medievais em monumento neolítico

Estudo revela sepultamentos medievais em monumento neolítico

Entre em nosso grupo de notícias no WhatsApp

Um estudo recente trouxe novas evidências sobre a longa permanência do significado simbólico de monumentos megalíticos na Europa. Pesquisadores identificaram sepultamentos medievais realizados em um dólmen construído no período Neolítico, revelando que estruturas erguidas há mais de cinco mil anos continuaram a exercer papel ritual e cultural muito além de sua época de origem.

A pesquisa analisou o Dólmen de Menga, localizado na região de Antequera, no sul da Espanha. Datado de aproximadamente 5.000 anos atrás, o monumento é composto por uma extensa câmara funerária conectada a um corredor coberto por um grande monte de terra, típico das construções megalíticas do Neolítico.

Embora tradicionalmente associado a sepultamentos pré-históricos, vestígios arqueológicos encontrados no local indicam que o dólmen continuou sendo utilizado de forma intermitente ao longo dos séculos, inclusive durante o período medieval.

Sepultamentos entre os séculos VIII e XI

O estudo examinou dois sepultamentos distintos, datados dos séculos VIII e XI d.C., quando o sul da Península Ibérica estava sob domínio islâmico. Apesar disso, a região abrigava uma convivência complexa entre comunidades cristãs, judaicas e possivelmente grupos que mantinham práticas religiosas anteriores.

Ambos os indivíduos foram enterrados de maneira semelhante, com as cabeças voltadas para o lado direito e orientadas para sudoeste, seguindo o eixo estrutural do próprio dólmen. Essa padronização sugere um respeito consciente à simetria e à orientação do monumento, independentemente da identidade religiosa dos sepultados.

Os pesquisadores conseguiram extrair DNA de apenas um dos indivíduos analisados. Os dados genéticos revelaram uma composição mista, com ascendência europeia, norte-africana e levantina, refletindo a diversidade populacional característica da Península Ibérica medieval.

Apesar de a disposição dos corpos poder indicar práticas funerárias islâmicas, o alinhamento observado não corresponde exatamente aos padrões conhecidos dos cemitérios muçulmanos da região, levantando hipóteses sobre rituais híbridos ou adaptações culturais específicas ao local.

Para os autores do estudo, o aspecto mais significativo da descoberta está no uso contínuo do dólmen como espaço funerário ao longo de milênios. O fato de sepultamentos terem sido realizados com cerca de dois séculos de diferença, mantendo o alinhamento ao eixo do monumento, indica que Menga permaneceu como um ponto de referência simbólico na paisagem local.

Essa permanência sugere que o valor do local transcendia crenças específicas, funcionando como um marco cultural profundamente enraizado na memória coletiva da região.

Contribuição para a arqueologia europeia

As conclusões do estudo ampliam a compreensão sobre a reutilização de monumentos pré-históricos em períodos históricos posteriores. Em vez de estruturas abandonadas, os dólmens podem ter sido reinterpretados e ressignificados por diferentes sociedades, mantendo sua importância ritual mesmo diante de mudanças políticas, religiosas e sociais.

O artigo científico completo foi publicado no Journal of Archaeological Science: Reports, reforçando o debate acadêmico sobre a longa duração simbólica dos monumentos megalíticos na Europa.

LEIA MAIS: Descoberta arqueológica na China revela possível zoológico da elite com mais de 3 mil anos

Rolar para cima
Copyright © Todos os direitos reservados.