Escavações arqueológicas realizadas como medida preventiva antes da construção da usina nuclear Sizewell C, no leste da Inglaterra, trouxeram à luz um achado considerado extraordinário pelos especialistas: um sepultamento anglo-saxão de elite que reúne restos de dois humanos e um cavalo, datado entre os séculos 6 e 7. A descoberta ocorreu em Suffolk e vem sendo descrita como um dos registros funerários mais raros do período inicial da Idade Média britânica.
O túmulo foi identificado durante trabalhos conduzidos pela Oxford Cotswold Archaeology (OCA) e integra um pequeno conjunto de montes funerários associados a grupos anglo-saxões de alto prestígio social. Embora os ossos não tenham resistido ao solo arenoso e ácido da região, as condições ambientais favoreceram um tipo incomum de preservação: silhuetas extremamente detalhadas formadas na areia, marcando com precisão a posição dos corpos, dos membros e dos objetos depositados na sepultura.
No interior da cova, os arqueólogos identificaram as formas de um cavalo com cerca de 1,4 metro de altura, além de dois indivíduos humanos — um adulto e uma criança. O conjunto funerário incluía ainda armas, arreios completos, recipientes metálicos de alto valor simbólico e contas de vidro, elementos que reforçam a interpretação de que se trata de um enterro reservado a uma elite restrita.

Segundo os pesquisadores, esse tipo de sepultamento está associado a tradições funerárias raríssimas na Inglaterra, comparáveis às observadas em sítios como Sutton Hoo, Snape e Prittlewell. Para Len Middleton, diretor do projeto arqueológico, o achado amplia de forma significativa o entendimento sobre como poder, identidade e status eram expressos nas comunidades anglo-saxônicas da região da Ânglia Oriental, especialmente em áreas costeiras estratégicas.
Além do sepultamento principal, a escavação revelou um amplo cemitério anglo-saxão nas proximidades, com mais de 140 sepulturas alinhadas de maneira regular no sentido leste-oeste. A organização cuidadosa das covas, respeitando distâncias e orientações semelhantes, indica planejamento coletivo e a existência de normas funerárias bem definidas.
Os arqueólogos também identificaram uma estrutura enigmática associada a um buraco de poste ao sul do cemitério. A ausência de materiais que permitam uma datação precisa mantém em aberto sua função, que pode estar relacionada tanto a rituais funerários quanto a uma ocupação anterior da área.

Entre os vestígios mais antigos, destaca-se uma escada pré-histórica de madeira conectada a um poço de água, preservada com seus degraus originais. Diferente de outras estruturas semelhantes conhecidas, geralmente talhadas em um único tronco, esta foi construída com travessas de carvalho trabalhadas individualmente. Marcas de ferramentas, incluindo impressões de um machado plano, permanecem visíveis na superfície da madeira, revelando técnicas avançadas de carpintaria.
O período romano também deixou marcas expressivas no local. Um forno de cerâmica com sistema de tiragem horizontal foi encontrado em estado incomum de conservação, com chaminé e revestimento interno praticamente intactos. Fragmentos de cerâmica fina associados à estrutura estão sendo analisados para determinar a cronologia e o perfil da produção local.
Outro elemento de destaque é um secador de milho romano de formato complexo, com câmara central e corredores ramificados que redistribuíam o calor. A análise das diferentes fases construtivas sugere uso prolongado da instalação e aponta para a importância contínua da atividade agrícola e industrial na região ao longo dos séculos.

De acordo com a equipe da OCA, o conjunto de descobertas oferece um registro quase ininterrupto da ocupação humana nessa paisagem costeira, desde a pré-história até a Idade Média. Para Rosanna Price, gerente de engajamento arqueológico da organização, o sítio reúne evidências de múltiplos aspectos da vida antiga, da produção de alimentos aos rituais de morte, formando um panorama raro e abrangente da história local, conforme destacou à BBC.
Os estudos seguem em andamento, e parte do material deverá ser apresentada ao público em exposições e publicações especializadas, aprofundando o conhecimento sobre as sociedades que moldaram a região ao longo de milênios.
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