Mais de um século após a descoberta da tumba de Tutancâmon no Vale dos Reis, arqueólogos continuam a desvendar os mistérios que cercam o jovem faraó. Recentemente, um estudo publicado no Journal of Egyptian Archaeology trouxe à tona um aspecto inexplorado da câmara funerária do governante: um conjunto de objetos que, até então, havia sido ignorado, mas que pode fornecer pistas sobre antigos ritos religiosos.
O egiptólogo Nicholas Brown, da Universidade de Yale, acredita que as bandejas de argila e os cajados de madeira encontrados ao lado do sarcófago de Tutancâmon não eram simples suportes, mas sim componentes essenciais de um rito fúnebre ligado ao deus Osíris. Esse novo estudo sugere que esses elementos podem representar a primeira evidência arqueológica do “Ritual do Despertar de Osíris”.
Desde a descoberta da tumba pelo arqueólogo britânico Howard Carter em 1922, os tesouros encontrados fascinaram o mundo. No entanto, artefatos considerados menos imponentes passaram despercebidos. Brown destaca que as bandejas de lama do rio Nilo poderiam ter sido utilizadas para libações, rituais em que líquidos eram oferecidos aos deuses para auxiliar a jornada do faraó para o outro mundo.
Já os cajados de madeira, posicionados próximos à cabeça do faraó, poderiam ter uma função semelhante àquelas utilizadas nos mitos egípcios, onde o deus Osíris era despertado por esses instrumentos. A descoberta sugere que a prática desse ritual possa ter se iniciado antes do que se imaginava, marcando a tumba de Tutancâmon como um importante marco na história religiosa egípcia.
A teoria de Brown ganha ainda mais força ao se considerar o contexto histórico do reinado de Tutancâmon. O jovem faraó ascendeu ao trono por volta de 1332 a.C., após a morte de Akhenaton, seu pai ou possível antecessor, que havia instituído o monoteísmo em homenagem ao deus solar Aton. Ao assumir o poder, Tutancâmon restaurou as tradições religiosas anteriores, retomando o culto aos deuses tradicionais, incluindo Osíris.
Essa mudança religiosa pode ter sido refletida em seu próprio enterro, e os objetos encontrados na tumba podem representar o primeiro registro físico do renascimento das crenças osirianas.
Outros especialistas, como Jacobus van Dijk, da Universidade de Groningen, também apoiam a hipótese de que as bandejas e os cajados tinham função ritualística. Ele sugere uma conexão com o “feitiço das quatro tochas”, um antigo ritual fúnebre egípcio no qual tochas eram mergulhadas em leite dentro de bandejas para guiar a alma do faraó através do submundo.
Se confirmadas, essas descobertas não apenas reforçam a importância de Tutancâmon na restauração das tradições religiosas do Egito Antigo, mas também podem reescrever parte da história da prática funerária egípcia.
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