No coração da Amazônia, um projeto de conservação vem transformando a realidade dos quelônios há mais de duas décadas.
A Comunidade Enseada, localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Uatumã, celebrou mais um capítulo dessa jornada ao devolver à natureza 18.079 filhotes de tracajás, irapucas, iaçás e tartarugas-da-amazônia.
Esse trabalho, realizado com o apoio da Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema), não é apenas um evento isolado. Trata-se de um esforço coletivo que envolve desde o monitoramento das áreas de desova até o nascimento e crescimento seguro dos filhotes antes da soltura.
O processo de proteção dos quelônios é minucioso. Inspirado na metodologia do Projeto Pé-de-Pincha, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), ele começa entre julho e outubro, quando os ovos são coletados e levados para chocadeiras artificiais. Durante 60 a 70 dias, os comunitários monitoram o desenvolvimento dos embriões até a eclosão. Os pequenos quelônios, então, passam um período de dois a três meses em um berçário improvisado até atingirem um tamanho seguro para a soltura.
“Sem a participação dos comunitários, esse trabalho seria impossível”, destaca Alexandra Farias, gestora do Departamento de Unidades de Conservação e Mudanças Climáticas (Demuc). “Hoje, vemos os resultados: onde antes apenas duas tartarugas desovavam, agora mais de 200 retornam”, comemora.
O ano de 2024 trouxe desafios extras para os monitores da RDS do Uatumã. A estiagem extrema reduziu os espaços para desova, impactando a quantidade de ovos coletados. Mesmo assim, o compromisso da comunidade prevaleceu. “Nosso sonho era soltar mais de 30 mil filhotes, mas, devido à seca, conseguimos 18.079”, conta Iracy Cleide, monitora de quelônios e entusiasta da conservação ambiental.
Iracy e seus companheiros de projeto não se deixam abalar pelos desafios. “O amor por esse trabalho nos move. Enquanto tivermos força, seguiremos protegendo essas espécies”, garante.
A cada ano, iniciativas como essa mostram que a conservação ambiental depende do envolvimento das comunidades locais. A participação ativa dos moradores é essencial para garantir que as futuras gerações possam ver tracajás, iaçás e tartarugas-da-amazônia nadando livres nos rios da Amazônia.
Com o apoio da Sema e o trabalho incansável dos comunitários, a RDS do Uatumã segue como um exemplo de que é possível aliar desenvolvimento sustentável e preservação da biodiversidade. O ciclo da vida continua, e cada filhote solto é uma esperança renovada para o futuro das espécies amazônicas.