Pontas de flecha de osso revelam práticas de guerra na Argentina pré-hispânica

Pontas de flecha de osso revelam práticas de guerra na Argentina pré-hispânica

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Descobertas arqueológicas recentes estão lançando nova luz sobre a complexidade social e tecnológica de povos que habitaram a região central da Argentina antes da chegada dos europeus. Um estudo detalhado de mais de uma centena de pontas de flecha feitas de osso indica que esses artefatos iam muito além do uso cotidiano, revelando práticas de guerra, transmissão de saberes e símbolos de identidade entre comunidades do período pré-hispânico tardio.

Os materiais analisados foram encontrados nas Sierras de Córdoba e pertencem a grupos que viveram há cerca de 700 anos, em sociedades marcadas pela mobilidade e por uma economia baseada na caça, coleta e agricultura. O conjunto evidencia um domínio técnico refinado e uma organização social estruturada em torno da família.

A pesquisa, conduzida pelo arqueólogo Matías Medina, do Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica da Argentina (CONICET), examinou 117 pontas de flecha datadas entre os séculos XIII e XVIII. O trabalho foi publicado na revista científica International Journal of Osteoarchaeology e contribui para preencher lacunas importantes sobre o uso do osso como matéria-prima na América do Sul.

Os dados revelam que a fabricação dessas armas seguia padrões bem definidos, repetidos ao longo de séculos. Esse grau de uniformidade sugere que o conhecimento técnico era transmitido dentro das famílias, de pais para filhos, sem a existência de oficinas especializadas ou produção centralizada.

Guanaco

O principal material utilizado na confecção das pontas era o osso longo do guanaco, animal aparentado à lhama e amplamente explorado por essas populações. Após o consumo da carne, os ossos eram reaproveitados, demonstrando um uso eficiente dos recursos disponíveis no ambiente.

Os artesãos davam preferência aos metápodos do animal, que eram cortados longitudinalmente e transformados em lâminas por meio de raspagem e lixamento em pedras abrasivas. O processo envolvia etapas sucessivas de corte, entalhe, simetrização e polimento, resultando em peças resistentes, aerodinâmicas e visualmente refinadas.

Um dos pontos centrais do estudo está na interpretação do uso dessas pontas de flecha. Diferentemente das pontas de pedra, geralmente associadas à caça, as versões em osso exigiam mais tempo e habilidade para serem produzidas. Essa característica levou os pesquisadores a associá-las principalmente a confrontos armados entre grupos rivais.

Algumas peças apresentam decorações incisas discretas, como linhas e pequenos triângulos. Esses elementos não eram meramente ornamentais. Para os arqueólogos, funcionavam como marcadores simbólicos, indicando pertencimento social, alianças e tradições guerreiras compartilhadas.

Identidade, conflito e memória cultural

Segundo Matías Medina, os detalhes estilísticos das pontas tinham papel fundamental na comunicação social. As armas carregavam mensagens sobre quem as produziu e a qual grupo pertenciam seus portadores, inclusive deixando marcas simbólicas nos confrontos. Assim, a flecha não era apenas um instrumento de ataque, mas também um elemento de afirmação cultural.

A análise mostra ainda que, apesar de pequenas variações individuais, havia um repertório regional comum, especialmente no Vale do Punilla. Esse padrão tornava os artefatos reconhecíveis entre diferentes comunidades, reforçando vínculos culturais mais amplos.

Os achados reforçam a hipótese de que a família nuclear era o principal eixo organizacional dessas sociedades, tanto na produção de alimentos quanto na fabricação de armas e ferramentas. Ao mesmo tempo, existia uma identidade regional compartilhada, construída por meio de técnicas, estilos e práticas comuns.

Os pesquisadores defendem a ampliação dos estudos para outras áreas da Argentina e países vizinhos. Em regiões com menor acesso a recursos minerais e maior dependência de ambientes aquáticos, o uso do osso também atingiu altos níveis de sofisticação, evidenciando a capacidade humana de adaptar tecnologias às condições locais.

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