Pergaminho bíblico mais antigo revela origem surpreendente e reforça mistérios sobre a transmissão da Bíblia

Pergaminho bíblico mais antigo revela origem surpreendente e reforça mistérios sobre a transmissão da Bíblia

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O manuscrito bíblico mais antigo e completo já descoberto acaba de revelar um detalhe que muda a forma como pesquisadores interpretam sua origem. O chamado Grande Pergaminho de Isaías, um dos mais importantes documentos dos Manuscritos do Mar Morto, foi originalmente produzido a partir de dois rolos distintos, que mais tarde foram unidos em um único pergaminho. A constatação foi confirmada por um novo estudo que analisou minuciosamente as características físicas e materiais do documento, datado do século 2 a.C.

Com mais de sete metros de comprimento e um estado de conservação considerado excepcional, o pergaminho é uma das principais referências para o estudo do Livro de Isaías e da Bíblia Hebraica. A descoberta acrescenta novas camadas de complexidade à história do manuscrito e lança luz sobre os processos de produção, uso e preservação dos textos sagrados ao longo dos séculos.

Um dos achados mais importantes da arqueologia bíblica

O Grande Pergaminho de Isaías foi encontrado em 1947, nas cavernas de Qumran, na Cisjordânia, durante as escavações que revelaram os Manuscritos do Mar Morto. Desde então, ele se tornou um dos documentos mais estudados do mundo, tanto por sua antiguidade quanto pela semelhança impressionante com versões medievais do texto bíblico, o que indica uma transmissão textual extremamente fiel ao longo do tempo.

O manuscrito apresenta praticamente todo o Livro de Isaías e se destaca entre os demais pergaminhos por sua extensão e integridade. Ao longo das décadas, especialistas já haviam levantado hipóteses sobre diferenças sutis entre suas seções, mas apenas agora surgem evidências materiais que confirmam sua origem fragmentada.

A nova pesquisa, conduzida pelo professor Marcello Fidanzio, da Università della Svizzera italiana, concentrou-se nas propriedades físicas do pergaminho. Foram analisados detalhes como dobras das folhas, alinhamento das colunas de texto, sinais de escrita, reforços costurados e o grau de conservação de cada parte.

Segundo o pesquisador, essas diferenças não são meramente estéticas ou fruto do desgaste natural. Elas indicam que o manuscrito foi produzido em duas etapas distintas, com materiais e técnicas que variam de uma seção para outra. A primeira parte corresponde aos capítulos iniciais do Livro de Isaías, enquanto a segunda abrange os capítulos finais, seguindo a divisão tradicional adotada na Idade Média.

“O próprio pergaminho nos fornece pistas claras de que existiu uma separação anterior e, posteriormente, um processo de unificação”, explica Fidanzio. Para ele, ainda não é possível afirmar se os dois rolos foram produzidos simultaneamente por escribas diferentes ou se a segunda parte foi criada anos depois para complementar a primeira.

Pergaminho bíblico mais antigo revela origem surpreendente e reforça mistérios sobre a transmissão da Bíblia
Foto: Marcello Fidanzio/Università della Svizzera Italiana

Inteligência artificial já apontava diferenças na escrita

As conclusões do novo estudo reforçam resultados de uma pesquisa anterior, realizada em 2021 pela Universidade de Groningen, nos Países Baixos. Na ocasião, cientistas utilizaram inteligência artificial para analisar a caligrafia do pergaminho e identificaram variações sutis no traçado das letras, sugerindo a atuação de mais de um escriba.

Agora, com a análise das características materiais, a hipótese ganha ainda mais força. A combinação de métodos tradicionais com tecnologias avançadas tem se mostrado fundamental para aprofundar o entendimento sobre manuscritos antigos e seus contextos históricos.

Datação indica intervalos de décadas entre as partes

Outro dado relevante surgiu em um estudo publicado em 2025, que utilizou inteligência artificial associada à datação por radiocarbono para examinar diversos Manuscritos do Mar Morto, incluindo o Grande Pergaminho de Isaías. Os resultados indicam que as duas partes do manuscrito podem ter sido produzidas com uma diferença de até algumas décadas.

Essa distância temporal ajuda a explicar assimetrias observadas entre as seções, como variações no número de caracteres por linha, no comprimento das folhas e no padrão de escrita. Para os especialistas, esses detalhes reforçam a ideia de que o pergaminho não foi um objeto estático, mas passou por adaptações ao longo do tempo.

Mais do que um simples artefato religioso, o Grande Pergaminho de Isaías oferece pistas sobre a relação das comunidades antigas com os textos sagrados. Para Fidanzio, o modo como o manuscrito foi produzido, modificado e preservado revela o valor simbólico e espiritual atribuído a ele por seus usuários.

“O pergaminho evoluiu junto com aqueles que o liam”, afirma o pesquisador. Segundo ele, observar como um objeto é tratado ao longo do tempo permite compreender o que era considerado essencial por uma determinada cultura, indo além do conteúdo escrito.

Exposição histórica reacende o interesse mundial

O interesse pelo manuscrito ganhou novo impulso com a confirmação de que o Grande Pergaminho de Isaías será exibido integralmente no Museu de Israel, em Jerusalém, no início de 2026. Será a primeira vez desde 1968 que o público poderá ver o documento completo, reunindo suas duas partes em uma única apresentação.

A exposição promete atrair estudiosos, religiosos e curiosos de todo o mundo, reacendendo debates sobre a formação da Bíblia, a atuação dos escribas antigos e a impressionante capacidade de preservação desses textos milenares.

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