Da horta simples ao prato que atravessa gerações
Por muito tempo esquecido fora dos quintais e das cozinhas do interior, o peixinho-da-horta ressurge como símbolo de uma alimentação mais consciente, sustentável e ligada às tradições brasileiras. Mais do que um ingrediente curioso, a planta representa o resgate de saberes populares, o aproveitamento inteligente dos recursos naturais e uma forma de cozinhar baseada no cuidado, na simplicidade e na valorização do que cresce perto de casa. Seu retorno acompanha uma mudança de olhar sobre a comida, que passa a priorizar origem, memória e sentido. Ao voltar ao prato, o peixinho-da-horta reconecta o presente a práticas antigas que seguem atuais e necessárias.
O que é a planta peixinho-da-horta
O peixinho-da-horta não é uma única espécie botânica específica, mas um nome popular atribuído a diferentes plantas cujas folhas são utilizadas empanadas e fritas, lembrando pequenos peixes depois de prontas. Em muitas regiões do Brasil, especialmente em Minas Gerais, o termo está fortemente associado ao uso das folhas de ora-pro-nóbis, planta resistente, de crescimento vigoroso e alto valor nutricional. Em outros locais, folhas de taioba, couve, serralha ou até folhas de abóbora também recebem essa denominação quando preparadas da mesma forma.
O nome nasce da aparência final do prato. Após serem envolvidas em massa e fritas, as folhas ganham formato alongado, superfície dourada e crocante, evocando visualmente pequenos peixes fritos. A criatividade popular transformou um alimento vegetal em algo familiar e atrativo, especialmente em épocas em que o acesso a carnes e pescados era limitado.
Trata-se, portanto, de uma planta e, ao mesmo tempo, de um preparo culinário. O peixinho-da-horta é tanto o que nasce na terra quanto o que chega à mesa, unindo botânica, cultura e cozinha.

Para que serve o peixinho-da-horta
O uso mais conhecido do peixinho-da-horta é culinário. Ele é consumido principalmente empanado e frito, servido como petisco, acompanhamento ou até prato principal em refeições simples. No entanto, sua função vai além do sabor. As folhas utilizadas nesse preparo são ricas em fibras, minerais e proteínas vegetais, o que explica sua importância histórica em dietas populares.
A ora-pro-nóbis, por exemplo, ficou conhecida como “carne dos pobres” justamente por seu alto teor proteico. Em comunidades rurais, ela complementava a alimentação em períodos de escassez, fornecendo nutrientes essenciais de forma acessível. Além disso, essas plantas são fáceis de cultivar, resistentes a variações climáticas e exigem poucos cuidados, o que reforça seu papel como alimento estratégico.
Hoje, o peixinho-da-horta também serve como porta de entrada para o universo das plantas alimentícias não convencionais, as chamadas PANCs. Ele desperta curiosidade, incentiva o cultivo doméstico e promove uma alimentação mais diversificada. Em restaurantes contemporâneos, aparece ressignificado, mas sem perder sua essência popular.
Valor cultural e simbólico da planta
Mais do que nutrir o corpo, o peixinho-da-horta carrega valor simbólico. Ele representa a cozinha do aproveitamento, da criatividade e da adaptação. Em tempos em que nada podia ser desperdiçado, transformar folhas em um prato saboroso era uma forma de resistência e engenhosidade.
Esse preparo também está ligado à memória afetiva. Muitas pessoas associam o peixinho-da-horta à infância, aos quintais dos avós, ao fogão a lenha e às refeições compartilhadas sem pressa. O retorno desse prato ao cotidiano urbano reflete um movimento maior de reconexão com essas experiências, em contraposição à comida industrializada e padronizada.
O interesse renovado pelo peixinho-da-horta não é apenas gastronômico, mas cultural. Ele sinaliza um desejo coletivo de recuperar saberes que sempre estiveram presentes, mas foram temporariamente deixados de lado.
Benefícios nutricionais e uso consciente
Do ponto de vista nutricional, as plantas usadas como peixinho-da-horta oferecem fibras que auxiliam a digestão, minerais como ferro e cálcio e compostos antioxidantes. Quando consumidas com moderação, mesmo na forma frita, podem integrar uma alimentação equilibrada.
O preparo tradicional envolve fritura, mas isso não invalida o valor do alimento. O segredo está na frequência e na qualidade dos ingredientes. Óleo limpo, temperatura adequada e folhas bem selecionadas garantem um resultado mais leve e seguro. Além disso, versões adaptadas, como assadas ou preparadas em air fryer, começam a surgir, mostrando a versatilidade do ingrediente.
O uso consciente passa também pelo reconhecimento correto da planta. Algumas folhas, como a taioba, exigem identificação adequada para evitar espécies tóxicas semelhantes. Por isso, o conhecimento tradicional e a orientação adequada são fundamentais.
Receita tradicional de peixinho-da-horta passo a passo
Antes da conclusão, segue o preparo clássico que consagrou o peixinho-da-horta como um dos pratos mais queridos da cozinha brasileira.
Comece separando cerca de 20 a 30 folhas de ora-pro-nóbis ou outra folha apropriada, firmes e sem manchas. Lave bem em água corrente e seque cuidadosamente. A secagem é importante para evitar excesso de umidade na fritura.
Para a massa, coloque em uma tigela uma xícara de farinha de trigo, uma pitada generosa de sal e pimenta-do-reino a gosto. Acrescente um ovo e misture. Aos poucos, adicione água ou leite até obter uma massa lisa e levemente espessa, capaz de envolver a folha sem escorrer rapidamente.
Aqueça óleo suficiente para fritura em uma panela funda. O óleo deve estar quente, mas não fumegante. Para testar, pingue um pouco da massa; se subir borbulhando, está no ponto.
Passe cada folha na massa, cobrindo bem ambos os lados, e coloque cuidadosamente no óleo. Frite poucas unidades por vez, virando se necessário, até que fiquem douradas e crocantes. Retire com escumadeira e escorra em papel-toalha.
Sirva ainda quente, acompanhado de limão, se desejar. O toque ácido realça o sabor e equilibra a fritura.

Uma planta simples que diz muito sobre quem somos
O peixinho-da-horta é mais do que uma curiosidade culinária. Ele sintetiza uma forma de viver, plantar e cozinhar baseada na observação da natureza e no respeito ao alimento. Ao entender o que é essa planta e para que ela serve, percebe-se que sua importância vai além do prato final. Ela representa autonomia alimentar, memória cultural e criatividade popular. Em um mundo cada vez mais acelerado, o retorno do peixinho-da-horta à mesa simboliza a valorização do simples bem-feito. Resgatar esse preparo é também resgatar histórias, afetos e saberes que nunca deixaram de existir, apenas aguardavam um novo olhar.
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