Heloisa L 68 1

Peixinho-da-horta: o que é a planta, para que serve e por que ela voltou ao centro da curiosidade brasileira

Da horta simples ao prato que atravessa gerações

Entre em nosso grupo de notícias no WhatsApp

Por muito tempo esquecido fora dos quintais e das cozinhas do interior, o peixinho-da-horta ressurge como símbolo de uma alimentação mais consciente, sustentável e ligada às tradições brasileiras. Mais do que um ingrediente curioso, a planta representa o resgate de saberes populares, o aproveitamento inteligente dos recursos naturais e uma forma de cozinhar baseada no cuidado, na simplicidade e na valorização do que cresce perto de casa. Seu retorno acompanha uma mudança de olhar sobre a comida, que passa a priorizar origem, memória e sentido. Ao voltar ao prato, o peixinho-da-horta reconecta o presente a práticas antigas que seguem atuais e necessárias.

O que é a planta peixinho-da-horta

O peixinho-da-horta não é uma única espécie botânica específica, mas um nome popular atribuído a diferentes plantas cujas folhas são utilizadas empanadas e fritas, lembrando pequenos peixes depois de prontas. Em muitas regiões do Brasil, especialmente em Minas Gerais, o termo está fortemente associado ao uso das folhas de ora-pro-nóbis, planta resistente, de crescimento vigoroso e alto valor nutricional. Em outros locais, folhas de taioba, couve, serralha ou até folhas de abóbora também recebem essa denominação quando preparadas da mesma forma.

O nome nasce da aparência final do prato. Após serem envolvidas em massa e fritas, as folhas ganham formato alongado, superfície dourada e crocante, evocando visualmente pequenos peixes fritos. A criatividade popular transformou um alimento vegetal em algo familiar e atrativo, especialmente em épocas em que o acesso a carnes e pescados era limitado.

Trata-se, portanto, de uma planta e, ao mesmo tempo, de um preparo culinário. O peixinho-da-horta é tanto o que nasce na terra quanto o que chega à mesa, unindo botânica, cultura e cozinha.

Peixinho-da-horta: o que é a planta, para que serve e por que ela voltou ao centro da curiosidade brasileira

Para que serve o peixinho-da-horta

O uso mais conhecido do peixinho-da-horta é culinário. Ele é consumido principalmente empanado e frito, servido como petisco, acompanhamento ou até prato principal em refeições simples. No entanto, sua função vai além do sabor. As folhas utilizadas nesse preparo são ricas em fibras, minerais e proteínas vegetais, o que explica sua importância histórica em dietas populares.

A ora-pro-nóbis, por exemplo, ficou conhecida como “carne dos pobres” justamente por seu alto teor proteico. Em comunidades rurais, ela complementava a alimentação em períodos de escassez, fornecendo nutrientes essenciais de forma acessível. Além disso, essas plantas são fáceis de cultivar, resistentes a variações climáticas e exigem poucos cuidados, o que reforça seu papel como alimento estratégico.

Hoje, o peixinho-da-horta também serve como porta de entrada para o universo das plantas alimentícias não convencionais, as chamadas PANCs. Ele desperta curiosidade, incentiva o cultivo doméstico e promove uma alimentação mais diversificada. Em restaurantes contemporâneos, aparece ressignificado, mas sem perder sua essência popular.

Valor cultural e simbólico da planta

Mais do que nutrir o corpo, o peixinho-da-horta carrega valor simbólico. Ele representa a cozinha do aproveitamento, da criatividade e da adaptação. Em tempos em que nada podia ser desperdiçado, transformar folhas em um prato saboroso era uma forma de resistência e engenhosidade.

Esse preparo também está ligado à memória afetiva. Muitas pessoas associam o peixinho-da-horta à infância, aos quintais dos avós, ao fogão a lenha e às refeições compartilhadas sem pressa. O retorno desse prato ao cotidiano urbano reflete um movimento maior de reconexão com essas experiências, em contraposição à comida industrializada e padronizada.

O interesse renovado pelo peixinho-da-horta não é apenas gastronômico, mas cultural. Ele sinaliza um desejo coletivo de recuperar saberes que sempre estiveram presentes, mas foram temporariamente deixados de lado.

Benefícios nutricionais e uso consciente

Do ponto de vista nutricional, as plantas usadas como peixinho-da-horta oferecem fibras que auxiliam a digestão, minerais como ferro e cálcio e compostos antioxidantes. Quando consumidas com moderação, mesmo na forma frita, podem integrar uma alimentação equilibrada.

O preparo tradicional envolve fritura, mas isso não invalida o valor do alimento. O segredo está na frequência e na qualidade dos ingredientes. Óleo limpo, temperatura adequada e folhas bem selecionadas garantem um resultado mais leve e seguro. Além disso, versões adaptadas, como assadas ou preparadas em air fryer, começam a surgir, mostrando a versatilidade do ingrediente.

O uso consciente passa também pelo reconhecimento correto da planta. Algumas folhas, como a taioba, exigem identificação adequada para evitar espécies tóxicas semelhantes. Por isso, o conhecimento tradicional e a orientação adequada são fundamentais.

Receita tradicional de peixinho-da-horta passo a passo

Antes da conclusão, segue o preparo clássico que consagrou o peixinho-da-horta como um dos pratos mais queridos da cozinha brasileira.

Comece separando cerca de 20 a 30 folhas de ora-pro-nóbis ou outra folha apropriada, firmes e sem manchas. Lave bem em água corrente e seque cuidadosamente. A secagem é importante para evitar excesso de umidade na fritura.

Para a massa, coloque em uma tigela uma xícara de farinha de trigo, uma pitada generosa de sal e pimenta-do-reino a gosto. Acrescente um ovo e misture. Aos poucos, adicione água ou leite até obter uma massa lisa e levemente espessa, capaz de envolver a folha sem escorrer rapidamente.

Aqueça óleo suficiente para fritura em uma panela funda. O óleo deve estar quente, mas não fumegante. Para testar, pingue um pouco da massa; se subir borbulhando, está no ponto.

Passe cada folha na massa, cobrindo bem ambos os lados, e coloque cuidadosamente no óleo. Frite poucas unidades por vez, virando se necessário, até que fiquem douradas e crocantes. Retire com escumadeira e escorra em papel-toalha.

Sirva ainda quente, acompanhado de limão, se desejar. O toque ácido realça o sabor e equilibra a fritura.

Heloisa L 71 2

Uma planta simples que diz muito sobre quem somos

O peixinho-da-horta é mais do que uma curiosidade culinária. Ele sintetiza uma forma de viver, plantar e cozinhar baseada na observação da natureza e no respeito ao alimento. Ao entender o que é essa planta e para que ela serve, percebe-se que sua importância vai além do prato final. Ela representa autonomia alimentar, memória cultural e criatividade popular. Em um mundo cada vez mais acelerado, o retorno do peixinho-da-horta à mesa simboliza a valorização do simples bem-feito. Resgatar esse preparo é também resgatar histórias, afetos e saberes que nunca deixaram de existir, apenas aguardavam um novo olhar.

LEIA MAIS:Plantas que afastam mosquitos transformam a casa em um ambiente mais fresco

LEIA MAIS:Alecrim a planta que melhora a memória e traz sabor aos seus pratos

LEIA MAIS:Planta australiana dada como extinta há seis décadas é redescoberta

Rolar para cima
Copyright © Todos os direitos reservados.