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Orangotangos em Bornéu consomem combinações de plantas com propriedades medicinais, indica estudo

Pesquisadores identificaram padrões no consumo de plantas medicinais por orangotangos-de-bornéu (Pongo pygmaeus) que sugerem comportamento semelhante à automedicação. A análise abrangeu dados coletados entre 2003 e 2023 no Parque Nacional de Sabangau, em Kalimantan, na parte indonésia da ilha de Bornéu.

O estudo, publicado na revista Scientific Reports, avaliou mais de 12 mil registros de alimentação, envolvendo ingestão de frutos, folhas, raízes, flores e seivas. Os pesquisadores observaram que os animais não ingerem essas plantas de forma aleatória: determinadas espécies aparecem em combinações específicas e em sequências repetidas, indicando consumo seletivo que vai além da simples nutrição.

Para identificar quais plantas têm potencial terapêutico, os autores recorreram ao conhecimento etnomedicinal das comunidades Dayak, consultando dois especialistas locais — Hendri Shagara e Iwan Shinyo — que figuram como coautores do trabalho. A partir de mais de 200 espécies culturalmente relevantes, a equipe selecionou nove plantas principais para análise.

Entre as espécies destacadas estão Fibraurea tinctoria, Alyxia, Willughbeia, Gnetum e Mezzettia parviflora. A Fibraurea tinctoria teve papel central: apareceu em todas as combinações identificadas e é associada a efeitos analgésicos, antitérmicos, anti-inflamatórios e diuréticos. Pesquisas anteriores já registraram uso dessa planta por orangotangos — inclusive um caso em que um indivíduo de Sumatra aplicou uma pasta para tratar uma ferida facial.

Observações anteriores, também em Sabangau, mostraram fêmeas mastigando folhas de Dracaena cantleyi e aplicando a mistura com saliva em áreas do corpo, procedimento compatível com alívio de dores musculares ou articulares, devido às propriedades anti-inflamatórias da planta.

A líder do estudo, Georgia Allen, que conduziu a pesquisa como parte do mestrado na Universidade de Exeter (Reino Unido), afirmou que ainda não é possível afirmar que os orangotangos estão conscientemente “diagnosticando” problemas como humanos. No entanto, segundo Allen, os resultados indicam consumo seletivo de plantas com propriedades medicinais que não pode ser explicado apenas como alimentação cotidiana.

Os autores destacam possíveis explicações para o padrão observado: aprendizado social e transmissão de conhecimento entre gerações ou respostas instintivas podem estar por trás das escolhas alimentares. Em primatas não humanos, casos de automedicação já foram documentados, como em chimpanzés que ingerem folhas de Vernonia amygdalina para combater parasitas intestinais.

O trabalho amplia o registro de interações entre primatas e plantas medicinais, mas os pesquisadores ressaltam a necessidade de estudos adicionais para esclarecer os mecanismos de aprendizagem e a intenção por trás do consumo dessas espécies.

Com informações de Super.abril

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