Heloisa L 61 2

Ondas de mais de 30 metros: os gigantes do mar

Quando o mar se levanta como um prédio de dez andares

Entre em nosso grupo de notícias no WhatsApp

O mar, visto da praia em um dia ensolarado, costuma transmitir serenidade. Ondas quebram suavemente na areia, crianças brincam na água e o horizonte parece imóvel. No entanto, essa paisagem tranquila esconde uma força que pode se transformar em espetáculo grandioso e, ao mesmo tempo, assustador. Em determinadas condições, algumas ondas no mar podem ultrapassar 30 metros de altura — o equivalente a um edifício de dez andares erguendo-se sobre a superfície do oceano.

Essas ondas gigantes não são fruto de exagero cinematográfico. Elas existem, são registradas por instrumentos científicos e já foram testemunhadas por navegadores, pescadores e surfistas que dedicam a vida a desafiar limites. Em alto-mar, longe da costa, a energia acumulada pelo vento ao longo de milhares de quilômetros pode gerar massas de água que se deslocam com potência impressionante.

O fenômeno das ondas extremas intriga pesquisadores há décadas. Como se formam? Por que algumas regiões do planeta são mais propensas a produzi-las? E até que ponto é possível prever sua ocorrência? Em meio a estudos oceanográficos e relatos históricos, a ciência tenta compreender esses gigantes líquidos que, por instantes, parecem romper a lógica do oceano.

Como nascem as ondas gigantes

As ondas são formadas principalmente pela ação do vento sobre a superfície da água. Quanto maior a velocidade do vento, mais tempo ele sopra e maior a distância sobre a qual atua — chamada de “fetch” —, maior será a energia transferida para o mar. Em tempestades intensas, essa combinação pode resultar em ondas de proporções extraordinárias.

Em regiões de clima severo, como o Atlântico Norte e o Pacífico Sul, sistemas de baixa pressão atmosférica alimentam ventos persistentes que percorrem longas extensões oceânicas. O resultado é a formação de ondas com dezenas de metros de altura.

É importante distinguir ondas gigantes comuns das chamadas “ondas anômalas” ou “rogue waves”. Enquanto as primeiras são previsíveis dentro de sistemas de tempestade, as ondas anômalas surgem de maneira súbita, podendo ultrapassar 30 metros mesmo em mares aparentemente controlados. Durante muito tempo, relatos sobre essas ondas foram considerados lendas de marinheiros. Hoje, medições por satélite e boias oceânicas confirmam sua existência.

Nazaré e outros palcos de ondas colossais

Entre os cenários mais famosos do mundo quando se fala em ondas gigantes está Nazaré, cidade portuguesa que se tornou referência internacional no surfe de ondas grandes. Na Praia do Norte, já foram registradas ondas superiores a 30 metros, impulsionadas por um fenômeno geográfico singular: o Canhão da Nazaré.

Esse cânion submarino, com cerca de 170 quilômetros de extensão e profundidades que ultrapassam 5 mil metros, canaliza e amplifica a energia das ondas vindas do Atlântico. Quando essas ondas encontram a plataforma continental mais rasa próxima à costa, sua altura aumenta dramaticamente.

Surfistas como Rodrigo Koxa e Garrett McNamara entraram para a história ao desafiar ondas gigantes em Nazaré, estabelecendo recordes mundiais reconhecidos por entidades internacionais.

Outras regiões também registram ondas impressionantes, como o Havaí, especialmente na mítica Jaws, e a costa da Califórnia, em Mavericks. Cada local possui características geográficas específicas que favorecem a formação de ondas monumentais.

Ondas anômalas: o mistério do oceano

As chamadas ondas anômalas, também conhecidas como “ondas monstruosas”, representam um dos maiores desafios para a navegação. Diferentemente das ondas geradas por tempestades previsíveis, elas podem surgir isoladamente, atingindo alturas muito acima da média das demais ondas ao redor.

Registros históricos apontam que embarcações de grande porte já foram seriamente danificadas por essas formações inesperadas. Somente no final do século XX, com o avanço da tecnologia de monitoramento por satélite, a comunidade científica passou a documentar esses eventos de forma sistemática.

Pesquisas indicam que a interferência construtiva — quando várias ondas se alinham e somam suas energias — pode explicar parte desses episódios. Ainda assim, o comportamento exato das ondas anômalas continua sendo objeto de investigação.

Ondas de mais de 30 metros: os gigantes do mar

A física por trás da altura impressionante

Medir uma onda não é tarefa simples. A altura é calculada da base do vale até o topo da crista. Em mar aberto, ondas de 30 metros representam volumes gigantescos de água em movimento. A energia liberada por uma única onda desse porte pode ser comparável à de explosões de grande escala.

A profundidade do oceano, o relevo submarino e as correntes marítimas influenciam diretamente a formação e a intensidade das ondas. Cânions submarinos, montes submersos e plataformas continentais funcionam como verdadeiros amplificadores naturais.

Além disso, mudanças climáticas e padrões atmosféricos globais também entram na equação. Embora não haja consenso definitivo sobre aumento na frequência de ondas extremas, cientistas acompanham atentamente possíveis alterações nos regimes de tempestades.

Risco e fascínio

Ondas de mais de 30 metros representam ameaça real para embarcações, plataformas marítimas e comunidades costeiras. Sistemas de alerta e modelos matemáticos ajudam a prever tempestades e minimizar riscos, mas o oceano ainda guarda imprevisibilidades.

Ao mesmo tempo, o fenômeno desperta fascínio. O surfe de ondas grandes transformou-se em modalidade extrema, exigindo preparo físico, treinamento técnico e equipes de resgate altamente especializadas. Jet skis auxiliam na entrada e retirada dos surfistas, e o uso de coletes infláveis tornou-se padrão de segurança.

O espetáculo dessas ondas atrai turistas, fotógrafos e curiosos. Em Nazaré, multidões se reúnem nos mirantes durante o inverno europeu para observar a força bruta do Atlântico.

Um planeta moldado pela água

As ondas gigantes também desempenham papel geológico. Ao longo de milênios, a ação constante das ondas contribuiu para esculpir falésias, formar praias e redistribuir sedimentos. O mar é agente modelador da paisagem terrestre.

Em contextos extremos, como tsunamis — que diferem das ondas geradas pelo vento —, a força da água pode alterar drasticamente regiões costeiras. Embora tsunamis tenham origem sísmica e dinâmica distinta, a comparação ajuda a dimensionar o poder do oceano.

Com tecnologia cada vez mais avançada, pesquisadores monitoram o comportamento das ondas por meio de boias oceanográficas, radares costeiros e satélites. O conhecimento acumulado amplia a segurança da navegação e aprofunda a compreensão sobre a dinâmica marinha.

O mar que nunca deixa de surpreender

O oceano cobre mais de 70% da superfície da Terra e ainda guarda mistérios que desafiam a ciência. Entre eles, as ondas que ultrapassam 30 metros de altura simbolizam a grandiosidade e a imprevisibilidade do ambiente marinho.

Esses gigantes líquidos não são mitos. São fenômenos reais, estudados e registrados, que revelam a complexidade das interações entre vento, relevo submarino e correntes oceânicas.

Se para navegadores representam risco, para cientistas são objeto de pesquisa contínua. Para surfistas, desafio máximo. Para o público, espetáculo de rara magnitude.

Ao observar o mar aparentemente calmo da costa, é difícil imaginar que, em algum ponto distante, uma parede de água pode erguer-se como um arranha-céu natural.

O oceano permanece dinâmico, pulsante e poderoso.

E talvez seja justamente essa combinação de beleza e força que continue a despertar respeito e admiração diante de suas maiores ondas.

Heloisa L 60 2

LEIA MAIS:Existem montanhas submersas maiores que o Everest

LEIA MAIS:Apenas 5% dos oceanos foram explorados

LEIA MAIS:Vulcões submersos ativos no fundo do oceano

Rolar para cima
Copyright © Todos os direitos reservados.