Franz Kafka, conhecido por sua escrita marcada pela angústia, pela burocracia e pelo absurdo da existência, raramente expunha suas emoções de forma direta. No entanto, há registros de que uma obra literária foi capaz de tocá-lo profundamente a ponto de levá-lo às lágrimas. Trata-se de “Michael Kohlhaas”, do escritor alemão Heinrich von Kleist, um texto que dialoga intensamente com os dilemas existenciais que também atravessam a obra kafkiana.
“Michael Kohlhaas”, publicado no início do século 19, apresenta a história de um homem comum que se vê envolvido em uma luta desesperada por justiça. O protagonista, um comerciante honesto, enfrenta um sistema que falha em reparar um prejuízo aparentemente simples, dando início a uma trajetória marcada por revolta e consequências trágicas.
A narrativa, embora ambientada no século 16, expõe um conflito atemporal: o embate entre o indivíduo e estruturas de poder que se mostram ineficazes ou indiferentes. Essa tensão é justamente um dos pilares da literatura de Kafka.
A identificação entre Kafka e Kleist
Ao ler a obra de Kleist, Kafka reconheceu elementos que dialogavam diretamente com sua própria experiência. A sensação de impotência diante de sistemas burocráticos, a frustração com a ausência de justiça e o peso de decisões que escapam ao controle individual são temas recorrentes em ambos os autores.
Em cartas pessoais, Kafka menciona o impacto da leitura, indicando que a história de Kohlhaas refletia uma inquietação que ele próprio carregava.

No centro da narrativa está a busca por reparação. O personagem principal não deseja poder ou reconhecimento, mas apenas a restituição de algo que lhe foi tirado. A recusa das autoridades em solucionar o problema transforma uma questão simples em um conflito crescente, que ultrapassa limites morais e sociais.
Essa progressão revela como a ausência de justiça pode levar o indivíduo ao extremo, tema que também aparece em obras como “O Processo”, de Kafka.
Diferentemente de narrativas que oferecem alívio ou resolução satisfatória, “Michael Kohlhaas” apresenta um desfecho que não proporciona conforto ao leitor. A obra expõe as consequências de um sistema falho e a incapacidade de restaurar plenamente aquilo que foi perdido.
Esse tipo de construção narrativa, marcada pela ausência de redenção, é um dos pontos de convergência entre Kleist e Kafka, reforçando o impacto emocional da leitura.
Por que Kafka chorou?
A emoção de Kafka diante da obra pode ser interpretada como resultado de uma identificação profunda. Ao reconhecer no personagem e na história aspectos de sua própria visão de mundo, o autor se deparou com uma representação literária de conflitos que ele mesmo vivenciava.
Mais do que uma reação à trama, o choro pode ser entendido como resposta à constatação de que certas estruturas, sociais, jurídicas e humanas, permanecem imutáveis, independentemente do tempo.
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