Se você gosta de suspense que trabalha com detalhes pequenos, decisões aparentemente banais e uma tensão que cresce sem alarde, Nunca Minta, de Freida McFadden, entrega exatamente isso. O livro não aposta em correria, perseguição ou violência explícita. Ele constrói o desconforto com portas fechadas, informações incompletas e a sensação constante de que alguém sabe mais do que deveria.
A história começa com um casal em busca da casa perfeita. Tricia e Ethan fazem uma visita a uma mansão isolada, em meio a uma tempestade de neve, para avaliar a possível compra do imóvel. O que era para ser uma inspeção rápida vira uma permanência forçada quando as estradas ficam bloqueadas. O isolamento não é apenas geográfico. É narrativo. A casa parece silenciosa demais, grande demais e cheia de espaços que sugerem histórias não contadas.
Aos poucos, Tricia começa a explorar os cômodos e encontra algo que muda completamente o tom da situação: fitas e registros da antiga moradora, a psiquiatra Adrienne Hale, desaparecida anos antes sem deixar rastros.
A casa como armadilha psicológica
Freida McFadden usa o cenário com precisão cirúrgica. A neve lá fora impede qualquer saída. A casa, por dentro, não é apenas um espaço físico, mas um labirinto emocional. Cada corredor sugere algo escondido. Cada porta fechada vira convite para desconfiar.
Tricia, que já carrega suas próprias inseguranças, passa a ouvir as gravações deixadas por Adrienne. O recurso narrativo é simples, mas extremamente eficaz: enquanto Tricia descobre os registros, o leitor também passa a conhecer o passado da psiquiatra por meio das sessões gravadas com seus pacientes.
Esses áudios funcionam como janelas para histórias paralelas que parecem desconectadas no início, mas que começam a formar um desenho inquietante.
Diários, fitas e a construção da dúvida
O que torna Nunca Minta tão envolvente não é apenas o mistério sobre o desaparecimento de Adrienne, mas a forma como as informações chegam ao leitor. Nada é entregue de forma direta. Tudo vem por fragmentos, por relatos de pacientes, por impressões que podem ou não ser confiáveis.
Freida trabalha com um dos elementos mais fortes do suspense psicológico: a dúvida constante sobre quem está falando a verdade. Tricia começa a desconfiar do passado da casa. Depois, começa a desconfiar do próprio marido. E, em determinado ponto, o leitor passa a desconfiar da própria Tricia.
Essa troca de desconfiança é gradual e nunca exagerada. É construída com pequenos detalhes, olhares, pausas em conversas, reações que parecem levemente deslocadas.

O peso do silêncio entre o casal
Ethan não é um personagem barulhento. Ele não discute, não entra em confrontos diretos, mas sua postura tranquila demais começa a incomodar. Enquanto Tricia se envolve cada vez mais nas descobertas da casa, Ethan parece sempre saber menos do que deveria ou reagir menos do que seria esperado.
O livro trabalha muito bem esse contraste. Enquanto ela se agita internamente, ele mantém uma calma que não tranquiliza, apenas aumenta a tensão.
As conversas entre os dois são curtas, práticas e cheias de subtexto. O que não é dito pesa mais do que o que é falado.
Adrienne Hale: a presença que nunca sai de cena
Mesmo desaparecida, Adrienne é talvez a personagem mais forte da trama. Por meio de suas gravações, ela ganha voz, personalidade e um papel central no suspense. Sua forma de conduzir as sessões, suas perguntas e a maneira como ela reage aos relatos dos pacientes revelam muito mais do que aparentam.
Aos poucos, percebe-se que ela não era apenas uma terapeuta comum. Ela sabia de coisas demais, sobre pessoas demais. E isso pode ter custado caro.
Suspense que depende de detalhes, não de ação
Freida McFadden não recorre a cenas de ação para prender o leitor. O suspense nasce de situações simples: alguém demorando para responder, um barulho em um cômodo vazio, uma porta que não estava aberta antes, um registro que não deveria estar ali.
O ritmo do livro é constante. Não há pressa, mas também não há momentos mortos. Cada capítulo adiciona uma peça nova ao quebra-cabeça, e quando o leitor acredita ter entendido o desenho completo, a autora reposiciona tudo com uma revelação que muda a perspectiva.
- Livro: Nunca Minta
- Autor (a): Freida McFadden
- Ano: 2022
- Gênero: Suspense, Suspense psicológico, Mistério, Romance psicológico, Ficção médica
- Avaliação: 8,5/10
- ★★★★☆
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