Novo idioma misterioso da antiguidade é descoberto em escavações arqueológicas

A história e a arqueologia são constantes fontes de surpresa e descobertas fascinantes. Recentemente, uma equipe de pesquisadores da Universidade de Wurtzburgo, na Alemanha, fez uma descoberta que está prestes a redefinir nossa compreensão da história linguística e cultural do antigo Império Hitita. Durante uma escavação no sítio arqueológico de Bogazköy-Hattusha, na Turquia, onde se localizava a capital do Império Hitita, uma tábua cuneiforme foi encontrada, revelando um idioma indo-europeu até então desconhecido. Essa descoberta intrigante, anunciada recentemente, está abalando a comunidade arqueológica e linguística e promete desvendar segredos há muito perdidos.

Bogazköy-Hattusha é um local de grande significado histórico e foi declarado Patrimônio Mundial da UNESCO em 1986. Durante o final da Idade do Bronze, entre 1650 e 1200 a.C., esta cidade foi uma das principais potências da Ásia Ocidental. A Unesco destaca sua organização urbana notável e a preservação de estruturas diversas, como templos, residências reais e fortificações, como motivos que justificam sua inclusão na lista de Patrimônios Mundiais. A cidade exerceu uma influência considerável sobre a Anatólia e o norte da Síria durante o segundo milênio a.C. No entanto, o que torna essa descoberta ainda mais emocionante é o contexto em que ela ocorreu.

Há mais de um século, escavações em Bogazköy-Hattusha têm sido realizadas sob a direção do Instituto Arqueológico Alemão, resultando na descoberta de quase 30 mil tabuletas de argila com escrita cuneiforme. Em 2001, essas tábuas foram incluídas no Patrimônio Documental Mundial da UNESCO, fornecendo uma janela fascinante para a história, sociedade, economia e tradições religiosas dos hititas e seus vizinhos. A maioria dos textos encontrados nas tábuas estava na língua hitita, que é a língua indo-europeia mais antiga documentada. No entanto, as escavações realizadas em 2023 revelaram algo completamente inesperado.

O professor Daniel Schwemer, especialista em antigo Oriente Próximo da Universidade de Wurtzburgo, estava diretamente envolvido na investigação em Bogazköy-Hattusha. Segundo Schwemer, o texto recém-descoberto é de natureza ritual hitita e faz referência ao novo idioma como “a língua da terra de Kalašma,” uma área presumivelmente localizada na extremidade noroeste do centro hitita, nas atuais províncias turcas de Bolu ou Gerede.

Essa descoberta é intrigante por várias razões. Primeiramente, os hititas tinham um histórico de registrar rituais em línguas estrangeiras, portanto, a presença de um novo idioma não é totalmente surpreendente. Os escribas do rei hitita frequentemente escreviam textos rituais que refletiam várias tradições e ambientes linguísticos da Anatólia, da Síria e da Mesopotâmia. Além do hitita, os textos cuneiformes de Bogazköy-Hattusha também incluíam passagens em línguas como luvita e palaica, que são outros idiomas indo-europeus intimamente relacionados ao hitita, bem como em hatita, que é uma língua não indo-europeia.

O professor Andreas Schachner, do Departamento de Istambul do Instituto Arqueológico Alemão, lidera as campanhas arqueológicas anuais em Bogazköy-Hattusha. A maioria dos textos encontrados até agora nas tábuas estava em hitita, e a descoberta de um novo idioma é um desenvolvimento empolgante. O idioma recém-descoberto pertence à família de línguas indo-europeias da Anatólia, de acordo com a professora Elisabeth Rieken, colega de Schwemer e pesquisadora da Universidade de Marburgo, na Alemanha.

O aspecto mais intrigante dessa descoberta é que, apesar da proximidade geográfica com a área onde a língua palaica era falada, o novo texto parece compartilhar mais características com o luvita. Isso levanta várias questões fundamentais sobre a relação entre essa língua enigmática e os outros dialetos luvitas da Anatólia durante o final da Idade do Bronze. Os luvitas eram um povo que habitava a região da Anatólia Central e desempenharam um papel importante na história da região durante essa época.

Os pesquisadores agora estão ansiosos para iniciar estudos mais aprofundados sobre esse novo idioma, a fim de decifrar seu significado e entender seu contexto cultural. A descoberta não apenas lança luz sobre a história linguística dos hititas, mas também pode fornecer insights valiosos sobre as interações culturais e linguísticas na região durante o segundo milênio a.C.

A língua é uma parte fundamental da identidade cultural de qualquer sociedade, e a descoberta de uma língua indo-europeia previamente desconhecida em Bogazköy-Hattusha é uma revelação que tem o potencial de enriquecer significativamente nosso entendimento das civilizações antigas. A partir deste ponto de partida, os estudiosos podem explorar conexões mais profundas entre essa língua recém-descoberta e outras línguas indo-europeias, traçando paralelos culturais e linguísticos que podem ter se perdido no tempo.

É importante destacar que essas descobertas arqueológicas frequentemente têm implicações que vão muito além do campo da linguística. A história e a cultura de uma civilização são frequentemente entrelaçadas com sua língua, e a decifração deste novo idioma poderia oferecer uma visão mais clara sobre os rituais, crenças religiosas, sistemas políticos e até mesmo o comércio dos antigos hititas.

À medida que os pesquisadores se aprofundam na análise deste tesouro linguístico recém-descoberto, podemos esperar que surjam novos insights que enriquecerão nossa compreensão da história do antigo Império Hitita e sua influência na Anatólia e no norte da Síria. A tábua cuneiforme encontrada em Bogazköy-Hattusha é um elo surpreendente entre o passado e o presente, e é um lembrete poderoso de que, mesmo após séculos, o mundo antigo ainda tem muitos segredos a revelar. A busca pelo conhecimento continua, e cada descoberta como esta nos aproxima mais da compreensão completa de nossas raízes históricas e culturais.

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