Múmias de guepardos revelam passado perdido da espécie e reacendem planos de reintrodução na Arábia Saudita

Múmias de guepardos revelam passado perdido da espécie e reacendem planos de reintrodução na Arábia Saudita

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O guepardo, reconhecido como o animal terrestre mais veloz do planeta, enfrenta hoje uma dura batalha pela sobrevivência. A espécie ocupa apenas uma fração do território que já dominou no passado, pressionada pela destruição do habitat, pela redução das presas naturais e pela intensificação dos conflitos com seres humanos. Na Península Arábica, o cenário sempre foi ainda mais crítico: registros indicavam que o felino havia praticamente desaparecido da região a partir da segunda metade do século XX.

Uma descoberta recente, no entanto, trouxe novos elementos para reescrever essa história. Pesquisadores identificaram sete guepardos mumificados em cavernas no norte da Arábia Saudita, achado que se tornou peça-chave para compreender a presença histórica do animal no território e avaliar possibilidades reais de reintrodução. O estudo, publicado na revista científica Communications Earth & Environment, combina técnicas modernas de sequenciamento genético com métodos de datação paleontológica.

As múmias foram encontradas próximas a restos ósseos, em diferentes pontos da região, o que permitiu aos cientistas reconstruir uma linha do tempo da ocupação dos guepardos na Arábia. A análise do DNA revelou que os exemplares não pertenciam todos à mesma subespécie, indicando uma diversidade genética maior do que se imaginava para a região ao longo dos séculos.

Os resultados mostraram que o indivíduo mais recente está geneticamente associado ao guepardo asiático, subespécie considerada criticamente ameaçada de extinção e atualmente restrita a uma pequena população no Irã. Já os espécimes mais antigos, com cerca de quatro mil anos, apresentaram afinidade genética com o guepardo da África Ocidental. Essa combinação sugere que a Península Arábica funcionou, em diferentes períodos, como uma zona de contato entre populações de origens distintas.

Historicamente, há registros confiáveis da presença do guepardo na região entre os séculos XIX e XX. O caso mais recente conhecido é o de uma fêmea adulta abatida por um caçador local em Omã, em 1977. Além disso, relatos e dados históricos indicam que o animal também habitou áreas hoje pertencentes à Arábia Saudita, Iêmen, Kuwait, Iraque, Jordânia e Palestina.

O desaparecimento do guepardo nesses territórios foi resultado de uma combinação de fatores. A fragmentação do habitat natural, a diminuição das presas silvestres, a caça descontrolada e o comércio ilegal de animais, tanto para fins ornamentais quanto para práticas de caça esportiva, contribuíram decisivamente para o colapso das populações locais.

Diante desse histórico, a Arábia Saudita passou a adotar políticas de conservação mais robustas nos últimos anos. O país criou áreas protegidas, investiu em programas de educação ambiental e estruturou uma agência dedicada ao combate de crimes contra a vida selvagem. A nova evidência genética fortalece essas iniciativas ao oferecer um respaldo científico para projetos de reintrodução da espécie.

Segundo os pesquisadores, a diversidade genética identificada nas múmias aumenta a viabilidade de reintrodução, pois amplia as opções de subespécies compatíveis com o ambiente local. Além disso, o estudo destaca que técnicas de análise de DNA antigo podem ser aplicadas a outras espécies extintas regionalmente, servindo como ferramenta estratégica para planos de conservação e repovoamento em diferentes partes do mundo.

Mais do que um achado arqueológico, as múmias de guepardos revelam que a história da fauna da Península Arábica é mais rica e complexa do que se supunha. E, ao mesmo tempo, apontam caminhos concretos para que um dos símbolos da velocidade e da elegância na natureza possa, um dia, voltar a correr livre pelos desertos da região.

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