Uma descoberta arqueológica no sul da Sibéria está reescrevendo o que se sabe sobre medicina na Antiguidade. Pesquisadores identificaram que uma jovem que viveu há cerca de 2.500 anos sobreviveu a um grave traumatismo craniano graças a uma intervenção cirúrgica sofisticada, que incluiu a instalação de uma prótese rudimentar na articulação da mandíbula.
O estudo foi conduzido por cientistas da Universidade Estadual de Novosibirsk, na Rússia, e analisou restos mortais associados à cultura Pazyryk, povo nômade da Idade do Ferro conhecido por seus túmulos congelados preservados no gelo da região do Altai.
Tomografia revela detalhes inéditos da cirurgia antiga
Para investigar o crânio, os especialistas utilizaram tomografia computadorizada de alta resolução, com centenas de cortes milimétricos que permitiram reconstruções digitais e físicas em 3D. O exame revelou uma depressão de 6 a 8 milímetros no osso temporal direito, compatível com um impacto severo — possivelmente uma queda de cavalo, hipótese levantada pelos pesquisadores.
O trauma destruiu a articulação temporomandibular (ATM) direita, deslocando a mandíbula e rompendo ligamentos. Sem intervenção, a jovem provavelmente não conseguiria mastigar ou falar adequadamente, o que poderia levá-la à morte em pouco tempo.
No entanto, os exames revelaram dois canais artificiais perfurados na articulação, com cerca de 1,5 milímetro de diâmetro. Dentro deles, foram encontrados vestígios de material orgânico elástico, possivelmente crina de cavalo ou tendão animal, que teria sido utilizado como uma espécie de ligadura para estabilizar a mandíbula.

Próteses primitivas e conhecimento anatômico avançado
Segundo os pesquisadores, essa estrutura funcionava como uma prótese primitiva, mantendo as superfícies ósseas alinhadas e permitindo que a paciente movimentasse a mandíbula. Embora não conseguisse mastigar do lado lesionado, ela sobreviveu tempo suficiente para que houvesse cicatrização óssea ao redor dos canais — prova de que o procedimento foi realizado em vida.
O desgaste acentuado dos dentes do lado esquerdo indica que a jovem compensou a limitação mastigando exclusivamente desse lado por meses ou até anos. A descoberta sugere um nível surpreendente de domínio anatômico e técnico para um povo nômade da Idade do Ferro.
Os Pazyryk já eram conhecidos por realizar trepanações cranianas e por dominar técnicas complexas de mumificação, preservadas graças às condições de congelamento do Planalto de Ukok. O túmulo onde a jovem foi encontrada integra o cemitério Verkh-Kaldzhin-2, descoberto na década de 1990.
A mulher, estimada entre 25 e 30 anos, foi enterrada de forma relativamente simples, sem artefatos luxuosos. Ainda assim, a operação realizada indica que sua vida tinha valor significativo dentro do grupo.
Para os pesquisadores, o achado pode representar uma das evidências mais antigas de cirurgia reconstrutiva envolvendo prótese funcional na articulação da mandíbula. Até o momento, não há registros semelhantes descritos na literatura científica.
Mais do que um caso isolado, a descoberta amplia o entendimento sobre as capacidades médicas na Antiguidade. A imagem de sociedades antigas como tecnologicamente limitadas é desafiada por evidências como esta. No gelo da Sibéria, uma jovem da Idade do Ferro deixou um testemunho silencioso de que o conhecimento humano, mesmo há milênios, já era capaz de salvar vidas com engenhosidade surpreendente.
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