Um planeta que ainda esconde seus maiores gigantes
Quando pensamos em montanhas colossais, a imagem que surge quase automaticamente é a do imponente Monte Everest, com seus 8.848,86 metros acima do nível do mar, coroando a cordilheira do Himalaia e simbolizando o ponto mais alto da Terra. Durante décadas, ele foi tratado como o maior gigante do planeta — e continua sendo, se o critério for altitude em relação ao nível do mar.
Mas a geografia é mais complexa do que parece nos mapas escolares.
O que pouca gente sabe é que existem montanhas submersas cuja dimensão total supera a do Everest quando consideramos sua base até o topo. Elas não aparecem nas fotos turísticas nem estampam cartões-postais. Permanecem ocultas sob quilômetros de água salgada, silenciosas, colossais e praticamente desconhecidas do grande público.
Sob a superfície azul que cobre mais de 70% da Terra, existe uma paisagem dramática de vales profundos, planícies abissais e cadeias montanhosas que rivalizam — e até superam — os maiores relevos continentais. A ciência ainda está mapeando essas formações com precisão. Estima-se que mais de 80% do fundo oceânico permanece inexplorado em detalhes.
Sim, o maior relevo do planeta pode não estar onde imaginamos.
Mauna Kea e Mauna Loa: os verdadeiros gigantes ocultos
Um dos exemplos mais impressionantes está no Havaí. O vulcão Mauna Kea, frequentemente lembrado como um dos picos mais altos do arquipélago, mede cerca de 4.207 metros acima do nível do mar. À primeira vista, nada que supere o Everest.
No entanto, quando se mede sua altura desde a base submersa, no fundo do oceano Pacífico, até o topo, o Mauna Kea alcança aproximadamente 10.200 metros de altura total. Ou seja, ele é mais alto que o Everest quando considerado em sua dimensão completa.
Outro colosso havaiano é o Mauna Loa, o maior vulcão em volume e área do planeta. Ele ocupa quase metade da Ilha Grande do Havaí e, assim como o Mauna Kea, possui grande parte de sua estrutura abaixo da superfície do mar. Em termos de massa e extensão territorial, o Mauna Loa é considerado o maior vulcão da Terra.
Essas montanhas se formaram ao longo de milhões de anos, resultado do movimento das placas tectônicas sobre um ponto quente do manto terrestre. À medida que a placa do Pacífico se deslocava, o magma emergia repetidamente, acumulando camadas e construindo verdadeiras fortalezas rochosas que hoje repousam parcialmente submersas.
Cordilheiras invisíveis e cadeias intermináveis
Se os vulcões havaianos já impressionam, o cenário global é ainda mais grandioso. No fundo dos oceanos, existe uma cadeia montanhosa contínua com cerca de 65 mil quilômetros de extensão: a Dorsal Mesoatlântica, parte de um sistema global conhecido como cordilheira meso-oceânica.
Ela atravessa oceanos inteiros, formando uma espécie de “costura” geológica do planeta. É considerada a maior cadeia montanhosa da Terra — muito maior que os Andes ou o Himalaia.
O mais curioso é que quase ninguém a vê.
Ao contrário das montanhas continentais, que desafiam alpinistas e encantam fotógrafos, essas estruturas permanecem ocultas sob camadas espessas de água. A pressão é esmagadora, a temperatura varia drasticamente e a escuridão é praticamente absoluta em grandes profundidades.
Ainda assim, há vida.
Em torno dessas montanhas submersas, prosperam ecossistemas surpreendentes. Fontes hidrotermais liberam minerais e calor, sustentando organismos que vivem sem depender da luz solar. São ambientes extremos que desafiam conceitos tradicionais sobre as condições necessárias para a vida.
O que são montes submarinos?
A ciência chama essas formações de montes submarinos ou “seamounts”. Estima-se que existam mais de 100 mil espalhados pelos oceanos, embora apenas uma fração tenha sido devidamente estudada.
Muitos deles são vulcões extintos. Outros continuam ativos. Alguns chegam a emergir parcialmente, formando ilhas. Outros permanecem totalmente submersos, invisíveis aos olhos humanos.
Essas montanhas desempenham papel crucial na dinâmica oceânica. Influenciam correntes marinhas, servem como refúgio para espécies migratórias e funcionam como verdadeiros oásis de biodiversidade em meio às vastas planícies abissais.
Além disso, são arquivos geológicos valiosos. Suas rochas guardam registros sobre a história tectônica da Terra, mudanças climáticas e transformações oceânicas ocorridas ao longo de milhões de anos.
Por que ainda sabemos tão pouco?
O mapeamento do fundo do mar exige tecnologia sofisticada. Sonar de alta precisão, submarinos não tripulados e satélites ajudam a revelar o relevo oculto, mas o processo é caro e demorado.
Enquanto a superfície da Lua e de Marte já foi mapeada com grande detalhamento, vastas áreas do nosso próprio planeta continuam sendo um mistério.
Isso revela um paradoxo fascinante: conhecemos melhor certos corpos celestes do que o chão que está sob os nossos próprios oceanos.
Projetos internacionais vêm acelerando esse mapeamento, como o Seabed 2030, iniciativa global que busca cartografar integralmente o fundo marinho até o fim da década. Cada nova descoberta confirma o que os cientistas já suspeitavam: o relevo submerso é tão dramático quanto — ou até mais — do que o terrestre.
A redefinição do que significa “maior”
A revelação de que existem montanhas submersas maiores que o Everest nos obriga a repensar conceitos aparentemente simples. O que define a maior montanha? A altitude acima do nível do mar? A distância total da base ao topo? O volume?
Dependendo do critério adotado, o título muda de mãos.
O Everest continua soberano como o ponto mais alto em relação ao nível do mar. Mas quando consideramos a base completa de uma montanha, estruturas como o Mauna Kea assumem protagonismo.
Essa diferença ilustra como a ciência evolui ao refinar parâmetros e métodos de medição. Não se trata de diminuir o Everest, mas de ampliar nossa compreensão sobre a geografia do planeta.
Um planeta ainda em construção
As montanhas submersas também lembram que a Terra está longe de ser estática. Placas tectônicas continuam se movendo, vulcões entram em erupção, ilhas surgem e desaparecem.
O relevo é dinâmico.
As grandes cadeias meso-oceânicas marcam pontos onde o assoalho marinho se expande lentamente, criando nova crosta terrestre. Em outras regiões, placas colidem e uma delas mergulha sob a outra, alimentando vulcões e terremotos.
Sob as águas, o planeta respira, transforma-se e constrói seus próprios gigantes silenciosos.
Os colossos que não vemos
Durante séculos, as montanhas simbolizaram o desafio máximo da natureza. Representaram fronteiras, aventuras e conquistas humanas. No entanto, as maiores estruturas do planeta talvez jamais sejam escaladas.
Elas estão ocultas sob quilômetros de água, invisíveis aos turistas e ausentes dos roteiros tradicionais de exploração. Montanhas submersas maiores que o Everest existem e continuam ali, sustentando ecossistemas únicos e registrando a história geológica da Terra. Sua grandiosidade não depende de visibilidade. Ao contrário, reside justamente no fato de que permanecem desconhecidas para a maioria. Em um mundo que parece completamente mapeado, esses gigantes lembram que ainda há mistérios profundos à espera de descoberta. E talvez o maior deles seja reconhecer que o planeta em que vivemos ainda guarda surpresas capazes de redefinir aquilo que julgávamos saber.

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