Mestres do Kung Fu recebem homenagem durante solenidade realizada na Assembleia Legislativa

Mestre e praticantes do kung fu, a arte marcial que nasceu na China há cerca de cinco mil anos, foram homenageados durante uma sessão especial que aconteceu na Assembleia Legislativa do Paraná, na noite desta quinta-feira (18). A cerimônia, uma iniciativa do deputado Alexandre Amaro (Republicanos), reverenciou a rica e milenar história do kung fu, cultivado por gerações, e que defende o fortalecimento e a honra dos laços entre as gerações.

Entusiasta e defensor das artes marciais, Alexandre Amaro destacou a importância dos esportes para a promoção da saúde física e mental dos cidadãos. Ele afirmou que a prática do kung fu nutre, de uma forma única, valores como disciplina, respeito e autoaperfeiçoamento. “É uma arte milenar que tem um trabalho muito importante. Atua na ressocialização, na divulgação de uma grande e importante cultura”, frisou. “Esse reconhecimento a esses professores e mestres é de suma importante. Hoje é um dia muito especial”, garantiu. O parlamentar é autor de um projeto de lei, em tramitação, que pretende instituir a data de hoje – 18 de abril – como o Dia Estadual do Kung Fu. Ele também assina a Lei 20.337/2020, que estabeleceu no calendário oficial do Paraná, o Dezembro Faixa Preta, com a finalidade de popularizar as artes marciais como fonte de desenvolvimento humano.

Com mais de 40 anos de prática e de ensino, o mestre Jorge Jefremovas, um dos homenageados, é uma das maiores referências em kung fu e tai chi chuan no Brasil. Formado em Educação Física e Psicologia, a linhagem marcial do mestre Jorge vem do grão mestre Chan Kwok Wai, pioneiro no estilo Shaolin do Norte no Brasil. Começou treinando em Porto Alegre (RS), mudando-se para Curitiba (PR) para concluir sua graduação marcial, assumindo o comando da antiga academia Senda (hoje Jing Wu) em 1991. Desde então se dedica a transmitir seus conhecimentos aos seus alunos de Curitiba. “Esse é um momento raro e de grande importância para as artes marciais”, afirmou. Mestre Jorge Jefremovas disse ser extremamente gratificante verificar o desenvolvimento das pessoas: “O kung fu leva as pessoas ao desenvolvimento de seu potencial máximo. Contribui para o desenvolvimento da sociedade”.

Quem também estava emocionado com a solenidade era o atleta Kayck Sena, 16 anos, um dos jovens talentos paranaenses. Kayck foi convocado para a seleção brasileira e vai participar de um campeonato nos Estados Unidos. O atleta já conquistou 22 medalhas competindo no estilo wushu. Filho do mestre Jorge Sena, com vários familiares também praticantes da arte, iniciou cedo nas artes marciais. “É um modo de viver, de disciplina, de respeito”, ensinou ele, que sonha e treina todos os dias com o objetivo de competir nas Olimpíadas da Juventude de Dakar.

A busca da inclusão foi o que motivou a professor Graziele Canalli, da Tao Artes Marciais, a se dedicar ao kung fu. Ela iniciou na área há cerca de 13 anos por causa do filho Ângelo: “Ele é autista e tinha dificuldades de relacionamento, para praticar esportes”. “Hoje está na faculdade, cursando Medicina Veterinária. A prática do kung fu mudou a vida dele”, relatou. Na academia da professora Graziele, o foco é a inclusão. Há turmas de crianças, jovens, especial para mulheres e até para idosos.

Os convidados da sessão solene tiveram a oportunidade de assistir a diversas apresentações da arte marcial, que apresentaram suas técnicas e estilos. Uma delas, a “Dança do Leão”, foi feita pelos alunos da Academia Jing Wu – Essência Marcial. Essa é uma dança tradicional na cultura chinesa, na qual os participantes imitam os movimentos de um leão usando uma fantasia do animal. Passada de geração em geração, a dança é realizada durante celebrações em templos, casamento e festivais populares, tendo como intuito afastar espíritos malignos e criar um ambiente de alegria e festividade. “Parabéns à todos. Fiquei impressionado”, afirmou o deputado Alexandre Amaro.

Na Menção Honrosa concedida aos homenageados os seguintes dizeres aparecem com ênfase: “Sua dedicação tem sido fundamental para o desenvolvimento físico e mental dos praticantes, promovendo valores como disciplina, persistência e respeito aos limites. Sua filosofia de ensino incentiva a evolução contínua dos alunos, preparando-os para enfrentar obstáculos sem jamais desistir ou desanimais.” A solenidade, intitulada “Homenagem à Prática do Kung Fu no Estado do Paraná”, contou com as participações autoridades, mestres e praticantes dessa arte marcial de vários estados e cidades do Paraná. Entre eles, Cícero Lourenço de Paula, representante do Secretário de Estado do Esporte; Rogério Leal Soares, mestre de kung fu e tai chi chuan; Edecir Martins, mestre de kung fu e tai chi chuan; o jornalista Rodrigo Wolff Apolloni, também professor de kung fu e tai chi chuan; professor Bruno Baniski, de kung fu e tai chi chuan da Academia Jing Wu; e o professor de kung fu e tai chi chuan, Glenilson Araújo Figueiredo, da Federação de Tai Chi Chuan de Rio Branco (Acre).

O deputado Alexandre Amaro lembrou, no início da sessão solene, que o kung fu é uma arte marcial que nasceu na China, há mais de 4.600 anos. Seus golpes foram inspirados nos movimentos de animais. Remonta ao período da dinastia Chou (1111 a.C.-255 a.C.). Simultaneamente ao incentivo à cultura física, estimula a prática de técnicas de desenvolvimento espiritual, baseadas em exercícios de concentração. É também considerado um eficiente instrumento de defesa pessoal.

No Brasil, o Kung Fu chegou no final da década de 1950, e início dos anos 60, trazida por vários mestres, numa época de diáspora chinesa. A história aponta como principais introdutores os mestres chineses Chan Kowk Wai, Chiu Ping Lok e Wong Shing Keng. Inicialmente ensinado somente para a comunidade de chinesa, especialmente pela dificuldade com a língua, com o passar do tempo passou a ser ministrado a todos os interessados e rapidamente se difundiu pelo país.

No caso do estilo Shaolin do Norte, foi trazido pelo mestre Chan Kwok Wai, em 1960. Por isso, os praticantes da modalidade consideram a data de chegada de Chan ao Brasil – 11 de abril, como o dia nacional do Kung fu, embora a data não esteja ainda formalizada. Em 2004, Chan foi reconhecido como grau máximo pela Organização de Mestres de Wu Shi e Kung Fu, em Vancouver, em cinco estilos: Shaolin do Norte, Yan Taiji, Bagua, Xingyi e Hung Sing Choy Li Fut. O mestre Chan Kwok Wai morreu, aos 87 anos, em janeiro de 2022, em São Paulo.

Na área do entretenimento o tema é amplamente abordado. Quem deixou um importante legado na divulgação dessa arte marcial foi o lutador e ator Bruce Lee (1940-1973), conhecido por suas performances em filmes de ação, especialmente por levar o kung fu para Hollywood (EUA). Embora tenha morrido no auge da carreira, com apenas 32 anos, seus filmes continuaram sendo exibidos e rodando o mundo. No Brasil dos anos 80, os telespectadores podiam assistir na TV e nos cinemas, Lee e inúmeros outros artistas (entre eles, Chuck Norris), protagonizando cenas de lutas que ficaram na história. Os movimentos, os golpes, eram revelados através de roteiros com coreografias incríveis, com eficientes demonstrações de defesa. 

Originalmente chamado de wushu (que significa “arte da guerra”, em mandarim), o kung fu surgiu da necessidade de lutar contra animais ferozes e inimigos. De acordo com a Confederação Brasileira de Kunfu Wushu (CBKW), atualmente o Wushu integra o programa oficial dos Jogos Olímpicos da Juventude Dakar 2026. A modalidade figurou como modalidade demonstrativa nos Jogos Olímpicos de Beijing 2008 e Jogos Olímpicos da Juventude Nanjing 2014. Além disso, a modalidade esteve por duas vezes entre as oito modalidades que chegaram a fase final para inclusão no programa oficial dos Jogos Olímpicos. A Federação Internacional de Wushu (IWUF) segue em forte campanha para inclusão da modalidade nas edições futuras dos Jogos Olímpicos.

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