Ano 1460. A Itália fervilhava com disputas políticas, renascimentos artísticos e sonhos grandiosos de poder. Em meio a esse cenário, Francesco Sforza, duque de Milão, tomou uma decisão que mudaria o panorama arquitetônico da cidade: reconstruir uma antiga fortaleza medieval em uma residência real. O resultado foi o imponente Castelo Sforza, que se tornaria não apenas símbolo do poder milanês, mas também o centro de um mistério secular.
Durante mais de 500 anos, uma lenda pairou sobre suas fundações: sob o castelo, existiria uma rede de túneis secretos, projetada para fuga, espionagem e proteção. Muitos duvidaram. Até agora. Graças a um esboço aparentemente inofensivo de Leonardo da Vinci, e com o auxílio de tecnologia de ponta, essa lenda se transformou em um fato histórico.
Qual foi a descoberta escondida nos desenhos de Leonardo da Vinci?
Pesquisadores da Universidade Politécnica de Milão, em colaboração com especialistas da empresa Codevintec e com a administração do próprio castelo, confirmaram a existência de túneis subterrâneos sob o Castelo Sforza. E não se trata de uma simples passagem: é uma rede complexa, minuciosamente planejada, com base em um desenho de Da Vinci presente no Codex Forster I, do final do século XV.
Com o uso de radares de penetração no solo e escaneamento a laser 3D, os cientistas conseguiram mapear o subsolo do castelo e encontraram traços exatamente nos mesmos pontos sinalizados por Da Vinci há mais de 500 anos. É como se o gênio tivesse deixado um mapa secreto, disfarçado de esboço técnico, esperando apenas pelas ferramentas do século XXI para ser decifrado.
O que era o Codex Forster I?
O Codex Forster I é um dos cadernos de anotações de Leonardo da Vinci, contendo estudos sobre engenharia, arquitetura, hidráulica e fortificações militares. Preservado hoje no Museu Victoria and Albert, em Londres, esse códice sempre foi tratado como mais um registro da genialidade técnica de Da Vinci. Mas poucos se deram conta de que um dos esboços, com linhas aparentemente abstratas, era, na verdade, um mapa detalhado de estruturas subterrâneas no coração de Milão.
A beleza da descoberta está na meticulosidade: Leonardo não apenas indicou o posicionamento dos túneis, mas também sugeriu sua função e rota de fuga. Mais do que um artista ou cientista, ele atuava também como arquiteto de estratégias militares — e com precisão assustadora.
Como os pesquisadores descobriram os túneis sob o Castelo Sforza?
A pesquisa começou com uma dúvida: e se aquele esboço de Da Vinci representasse algo real, concreto? A equipe então combinou tecnologia de radar de penetração (GPR – Ground Penetrating Radar) com escaneamento a laser LiDAR e varreduras eletromagnéticas de alta resolução. O castelo, que há séculos se ergue sobre mistérios, respondeu.
Os sensores detectaram anomalias geométricas consistentes com corredores artificiais, alguns interligando áreas do castelo, outros apontando para saídas externas — possivelmente usados como rotas de fuga durante ataques ou conspirações.
A confirmação veio com as sobreposições entre o desenho de Da Vinci e os dados dos sensores. Onde o esboço indicava um túnel, os equipamentos modernos captavam exatamente o mesmo traçado, mesmo em locais sem acesso visível ou histórico documentado.
Por que Leonardo da Vinci faria um mapa de túneis secretos?
Leonardo não era apenas um artista. Era engenheiro militar, arquiteto e conselheiro de governantes. Durante sua estadia em Milão, entre 1482 e 1499, trabalhou a serviço da corte dos Sforza. Sua missão? Projetar armas, sistemas de irrigação, pontes e — como agora sabemos — estruturas de defesa e evasão.
O castelo precisava ser mais do que bonito. Precisava ser funcional, estratégico. Da Vinci entendia que a guerra não era vencida só com espadas, mas com inteligência. Criar uma rede de túneis sob um castelo permitia deslocamento discreto de tropas, armazenamento de recursos e rotas de fuga em caso de traição ou cerco. Em resumo: era um movimento de xadrez.
Quantos túneis foram encontrados sob o Castelo Sforza?
Até o momento, os estudos confirmaram a existência de cinco passagens principais:
- Uma rota ligando a ala leste à muralha externa
- Um corredor que conecta a torre de vigia aos jardins
- Uma passagem subterrânea que leva a um antigo poço, possivelmente para abastecimento de água
- Um túnel que segue em direção ao antigo convento vizinho (hoje parte do circuito cultural)
- Uma saída oculta, distante cerca de 300 metros do castelo, em uma área que hoje abriga construções modernas
Além disso, os dados sugerem a existência de ramificações ainda não acessadas fisicamente. Ou seja: há mais para ser descoberto.
O que muda com essa descoberta histórica?
Essa revelação impacta diretamente o entendimento que temos sobre arquitetura renascentista, engenharia militar e até mesmo sobre a atuação política dos Sforza. Leonardo da Vinci, mais uma vez, mostra que sua genialidade não se restringia às artes plásticas.
Para o campo arqueológico, a descoberta é revolucionária: ela valida a combinação entre documentos históricos e tecnologia avançada, abrindo espaço para novos projetos de escaneamento em monumentos renascentistas por toda a Europa.
Para o turismo, o impacto é direto: o Castelo Sforza deve incluir os túneis em futuras visitas guiadas, criando uma nova narrativa interativa baseada na espionagem, guerra e inteligência renascentista. Já há planos para recriar os corredores em realidade aumentada.
Leonardo da Vinci era um estrategista militar disfarçado?
Essa pergunta ecoa entre historiadores há séculos. Agora, com provas concretas de sua atuação direta em estruturas de defesa, podemos afirmar que sim — Da Vinci era um estrategista brilhante, que via a cidade como um tabuleiro de xadrez.
A ideia de esconder um mapa funcional dentro de um caderno de anotações é, ao mesmo tempo, prática e genial. Escondido à vista de todos, o esboço esperava apenas as ferramentas certas para se revelar. Isso levanta questões sobre outros cadernos de Da Vinci: o que mais está codificado ali?
Como os túneis serão preservados?
O governo de Milão, junto à fundação do Castelo Sforza, já iniciou um plano de proteção e conservação das estruturas subterrâneas. Equipes de arqueologia digital estão mapeando cada centímetro escavado, e a expectativa é que, nos próximos anos, partes dos túneis sejam abertas ao público — com segurança reforçada e tecnologia imersiva para garantir acessibilidade sem risco à estrutura original.
Também está em curso um projeto educacional, que pretende incluir a descoberta em currículos escolares, destacando o papel da ciência e da arte na revelação de segredos históricos.
O passado ainda tem muito a dizer — especialmente quando Da Vinci é o autor
Leonardo da Vinci continua nos assombrando — no melhor dos sentidos. Sua habilidade de observar, registrar e projetar ultrapassa o tempo. O mapa escondido nos esboços do Codex Forster I é a prova definitiva de que, em meio a traços quase poéticos, havia planos reais, estratégicos e funcionais.
O Castelo Sforza, por sua vez, deixa de ser apenas um ponto turístico e entra para a história como palco de uma das descobertas mais fascinantes da arqueologia moderna. E se um desenho revelou tudo isso… imagine o que ainda está por vir.