Há artistas que leem por prazer. Outros leem para sobreviver intelectualmente. No caso de Fernanda Torres, a literatura parece funcionar como espinha dorsal de pensamento. Atriz premiada, cronista afiada e romancista reconhecida, ela sempre demonstrou diálogo intenso com obras que interrogam o Brasil, a memória, a arte e as contradições humanas.
Um defeito de cor
Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, é um romance monumental que acompanha Kehinde desde a infância no Daomé até sua trajetória como mulher escravizada e, depois, empresária na África. O livro não apenas reconstrói a violência da escravidão, mas restitui voz histórica às mulheres negras silenciadas. Inspirada em Luísa Mahin, a protagonista percorre o Atlântico em busca do filho, da fé e de autonomia. A obra alia rigor documental e intensidade narrativa para discutir pertencimento, identidade e formação do Brasil.

As ideias fora do lugar
Em As ideias fora do lugar, Roberto Schwarz oferece uma das leituras mais contundentes sobre a sociedade brasileira. Ao analisar a obra de Machado de Assis, Schwarz demonstra como o liberalismo importado convivia com a realidade escravocrata. O ensaio-título tornou-se referência obrigatória para compreender as contradições estruturais do país. Trata-se de leitura exigente, mas essencial para quem busca entender literatura como instrumento crítico.

Madame Bovary
Madame Bovary, de Gustave Flaubert, permanece atual ao retratar o descompasso entre fantasia e realidade. Emma Bovary constrói sua identidade a partir de expectativas literárias e acaba confrontada por frustração, adultério e ruína. A precisão psicológica de Flaubert inaugura o romance moderno e questiona o vazio da vida burguesa. É uma obra sobre desejo e autoengano — temas sempre contemporâneos.

Machado
Machado, de Silviano Santiago, recria os últimos anos de Machado de Assis sob uma perspectiva ousada. Entre crises nervosas, reflexões e interlocuções intelectuais, o romance examina o preço da genialidade. Santiago mistura biografia e invenção para refletir sobre arte, doença e modernização do país.

Grande Sertão: Veredas
Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, transcende o regionalismo para atingir dimensão universal. A narrativa de Riobaldo é um monólogo filosófico sobre bem e mal, amor e destino. A linguagem inovadora recria o sertão como espaço simbólico da condição humana. É leitura desafiadora e transformadora.

A Ilha do Tesouro
A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, é mais do que uma narrativa de piratas. É um romance de formação que trata de amadurecimento, moralidade e ambiguidade. Jim Hawkins aprende que heroísmo e traição caminham lado a lado.

O Pote Vazio
O Pote Vazio, de Demi, parece simples, mas carrega densidade moral. A história do menino que apresenta um vaso sem flor diante do imperador ensina que honestidade é mais valiosa que aparência de êxito. É literatura infantil que dialoga com adultos.

Fim
Fim acompanha cinco amigos cariocas no crepúsculo da vida. Com humor ácido e melancolia contida, a autora expõe fragilidades masculinas, vaidades e fracassos afetivos. O romance é um retrato sem idealizações da velhice urbana.

A glória e seu cortejo de horrores
A glória e seu cortejo de horrores examina a trajetória de um ator que experimenta ascensão e queda. O livro funciona como crítica mordaz ao sistema cultural, à celebridade efêmera e à ilusão artística. Há humor, mas também desencanto.

Sete Anos
Sete Anos reúne crônicas publicadas na imprensa. Política, cultura, luto e memória aparecem sob olhar irônico e conciso. O livro revela o amadurecimento de uma autora que aprendeu com o jornalismo a precisão e a síntese.

Conclusão
A reunião dessas obras revela um eixo comum: literatura como ferramenta de compreensão do Brasil e da condição humana. Entre romances históricos, ensaios críticos e ficções psicológicas, o repertório associado a Fernanda Torres aponta para leituras exigentes, mas profundamente transformadoras.
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