Decolonizar a leitura é um exercício silencioso, porém transformador. Significa questionar quais vozes aprendemos a ouvir, quais histórias foram priorizadas ao longo do tempo e, principalmente, quais foram deixadas de lado. Ao buscar autores e autoras que escrevem a partir de experiências negras, femininas e periféricas, o leitor amplia horizontes e passa a enxergar a sociedade sob ângulos menos óbvios, mais humanos e plurais.
Meridiana, de Eliana Alves Cruz
Em Meridiana, Eliana Alves Cruz constrói uma narrativa coral em que cada membro de uma família negra conta sua própria trajetória. A autora utiliza a primeira pessoa para revelar como a ascensão social é vivida de forma distinta por mãe, pai, filhos e filha. A obra expõe nuances da mobilidade social, das marcas do racismo e das heranças emocionais que atravessam gerações.
Com uma prosa delicada e precisa, o livro convida o leitor a compreender que nenhuma conquista é linear e que cada travessia carrega memórias, dores e aprendizados singulares.

Escritos de uma Vida, de Sueli Carneiro
Nesta coletânea, Sueli Carneiro reúne textos essenciais para entender a interseção entre racismo e machismo na experiência da mulher negra. A autora, referência no pensamento feminista negro no Brasil, discute como gênero e raça se entrelaçam produzindo formas específicas de opressão.
A leitura é ao mesmo tempo intelectual e política, oferecendo instrumentos para compreender estruturas sociais que ainda moldam desigualdades no país.

Recordações do Escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto
Publicado no início do século XX, o romance de Lima Barreto permanece atual ao narrar a trajetória de um jovem negro que acredita na educação como caminho de ascensão em um Brasil recém-republicano. Ao chegar ao Rio de Janeiro, Isaías se depara com a dura realidade do preconceito racial e do favoritismo social.
A obra é um retrato contundente de como o racismo estrutural já estava presente na formação da sociedade brasileira e como ele afetava sonhos, oportunidades e dignidade.

Irmã Outsider, de Audre Lorde
Audre Lorde escreve a partir do lugar da diferença. Mulher negra, lésbica e intelectual, ela transforma sua vivência em reflexão crítica sobre racismo, feminismo, amor, silêncio e resistência. Em quinze ensaios, a autora propõe que reconhecer quem somos é um ato político.
O livro é referência para quem deseja compreender o feminismo negro e as alianças necessárias para enfrentar estruturas excludentes.

Canção para ninar menino grande, de Conceição Evaristo
Nesta obra, Conceição Evaristo mergulha na figura de Fio Jasmim para discutir as complexidades da masculinidade negra e suas consequências nas relações afetivas. A autora trabalha com a poética da escrevivência, conceito que une memória, vivência e literatura.
O livro é um canto delicado e profundo sobre amor, dor, identidade e pertencimento dentro da experiência negra brasileira.

Conclusão
Ler esses autores é um convite a sair do lugar confortável das narrativas tradicionais e a mergulhar em perspectivas que revelam camadas profundas da realidade brasileira e global. São livros que transformam, questionam e ampliam o repertório cultural do leitor, oferecendo uma experiência literária que vai além do entretenimento: é formação de consciência.
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