Quando um livro ganha versão cinematográfica, a expectativa costuma ser alta. Personagens ganham rostos, cenários se materializam e histórias antes íntimas passam a ser compartilhadas em salas escuras. No entanto, nem sempre o cinema segue fielmente o ponto final da obra original. Em muitos casos, diretores e roteiristas optam por finais diferentes, seja para tornar a narrativa mais comercial, mais otimista ou simplesmente mais adequada à linguagem do cinema.
Clube da Luta, de Chuck Palahniuk
No livro, o desfecho é mais ambíguo e introspectivo, focado no estado mental do narrador após os eventos finais. Já o filme opta por uma cena simbólica e visualmente impactante, com prédios explodindo ao som de música icônica. A mudança transforma um encerramento mais psicológico em um manifesto imagético, o que alterou profundamente a percepção da história para o público.

O Iluminado, de Stephen King
Talvez um dos exemplos mais famosos. No livro, o hotel Overlook é destruído, encerrando o ciclo de horror e sugerindo redenção. No filme de Stanley Kubrick, o hotel permanece intacto, e o destino de Jack Torrance ganha um tom mais enigmático e perturbador. A diferença foi tão marcante que o próprio Stephen King criticou abertamente a adaptação.

Eu Sou a Lenda, de Richard Matheson
No romance, o final revela uma inversão moral poderosa: o protagonista percebe que se tornou o monstro de um novo mundo. O filme, por outro lado, apresenta um desfecho mais heroico e emocional, suavizando a reflexão filosófica que fez do livro um clássico da ficção científica.

Garota Exemplar, de Gillian Flynn
Embora o filme siga boa parte da trama do livro, o final cinematográfico enfatiza menos o cinismo e a crítica social presentes na obra original. No romance, o encerramento é mais frio e desconfortável, enquanto o filme busca um impacto dramático mais direto, adaptando o tom para o grande público.

Laranja Mecânica, de Anthony Burgess
O livro possui duas versões, e o cinema escolheu a mais sombria. Na edição original britânica, o protagonista amadurece e abandona a violência. Já o filme encerra a história com uma ironia cruel, reforçando o pessimismo e transformando completamente a mensagem final da obra.

Forrest Gump, de Winston Groom
O livro apresenta um protagonista mais sarcástico e menos idealizado, com um final mais ácido. O filme suaviza a narrativa, optando por um encerramento emotivo e inspirador. A mudança foi decisiva para o enorme sucesso popular da adaptação.

O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, de J.R.R. Tolkien
Embora relativamente fiel, o filme elimina o capítulo final conhecido como “O Expurgo do Condado”. No livro, esse trecho reforça o impacto da guerra na vida cotidiana. A ausência no cinema altera o tom do encerramento, tornando-o mais épico e menos melancólico.

As Vantagens de Ser Invisível, de Stephen Chbosky
O livro termina de forma mais aberta e introspectiva, enquanto o filme enfatiza a superação emocional do protagonista. A adaptação escolhe um final mais afirmativo, ajustando a história ao ritmo e à sensibilidade do cinema contemporâneo.

Blade Runner, inspirado em Philip K. Dick
Baseado em Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, o filme altera completamente o tom do final. O livro é mais pessimista e filosófico, enquanto o cinema oferece versões diferentes ao longo dos anos, algumas mais esperançosoas, outras mais ambíguas, transformando o desfecho em um debate permanente.

Jurassic Park, de Michael Crichton
No romance, personagens importantes têm destinos mais duros, e o tom é mais crítico em relação à ciência e ao controle humano. O filme suaviza o final, preserva personagens e aposta em um encerramento mais aventureiro, adequado ao cinema de entretenimento.

Conclusão
Os livros que viraram filmes com finais bem diferentes mostram que adaptações são, acima de tudo, interpretações. Algumas mudanças enriquecem a obra, outras geram frustração, mas quase todas estimulam debate. No encontro entre literatura e cinema, o ponto final raramente é definitivo — ele continua sendo reescrito a cada nova leitura ou sessão.
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