Há romances que começam com uma promessa simples e terminam com o leitor checando a respiração. Jantar Secreto, de Raphael Montes, pertence a essa categoria rara. A história parte de um gesto banal — amigos dividindo despesas — e avança, passo a passo, até um território em que ética, fome e oportunidade passam a disputar o mesmo espaço à mesa.
O narrador é Dante, jovem que deixa o interior do Paraná rumo ao Rio de Janeiro para dividir apartamento com três amigos de infância: Hugo, Miguel e Leitão. A cidade grande, que deveria significar começo, logo vira conta atrasada. O aluguel aperta, os bicos não pagam o básico e a sensação de fracasso se instala como um quinto morador. É nesse ponto que surge a ideia que muda tudo: organizar jantares exclusivos para clientes ricos, cobrando caro por uma experiência gastronômica “diferente”.
A engrenagem começa com cardápio e necessidade
O plano nasce de um talento real. Hugo cozinha bem, muito bem. Miguel organiza, Leitão resolve o que for preciso, e Dante observa — sempre observando — enquanto os jantares ganham forma. A clientela cresce por indicação, o dinheiro finalmente entra, e a casa deixa de parecer um erro. Só que o cardápio, aos poucos, deixa de ser apenas ousado. Ele atravessa uma fronteira que o livro não anuncia em voz alta, mas faz o leitor perceber pelo desconforto crescente.
Montes constrói a tensão sem pressa. As compras mudam, os horários ficam estranhos, as conversas passam a ser sussurros. O que antes era empolgação vira pacto silencioso. E o leitor acompanha a mudança não por explicações longas, mas por detalhes: a forma como Dante descreve a cozinha, a naturalidade com que a logística passa a ser tratada, o cuidado em não chamar atenção.

Amizade, dinheiro e a normalização do absurdo
O que dá força ao romance não é apenas a premissa chocante, mas a maneira como ela é normalizada pelos personagens. Eles não acordam vilões. Eles acordam endividados. A cada jantar, a justificativa fica mais fácil: pagar contas, manter a casa, aproveitar a chance. O dinheiro resolve problemas reais, e isso embaralha a noção de limite.
Dante, como narrador, é peça-chave. Ele não é o líder, nem o mais ousado, mas é quem registra a transformação do grupo. Seu olhar mistura culpa, fascínio e medo. Em vez de discursos morais, o livro oferece decisões práticas: onde conseguir “ingredientes”, como transportar, como explicar ausências, como manter a rotina para não levantar suspeitas.
O Rio que não é cartão-postal
A cidade aparece sem filtro turístico. O Rio de Janeiro de “Jantar Secreto” é o dos apartamentos apertados, dos bairros onde ninguém presta atenção em ninguém, das ruas que permitem anonimato. Esse cenário ajuda a sustentar a trama: é o tipo de lugar onde algo absurdo pode acontecer ao lado da vida comum sem que os dois mundos se encostem.
Os clientes, por sua vez, são retratados com uma curiosidade perturbadora. Pessoas ricas, entediadas, em busca de experiências únicas, dispostas a pagar caro por exclusividade. Eles não perguntam demais. Pagam, comem, elogiam e vão embora. Essa dinâmica cria uma crítica social sutil, mas constante, sobre consumo, privilégio e o valor que se dá ao que é raro — mesmo quando não deveria existir.

Quando o plano começa a escapar do controle
Como todo esquema que cresce rápido, os jantares passam a exigir mais do que o grupo consegue administrar. A logística pesa, o risco aumenta, e a sensação de que algo vai dar errado deixa de ser impressão. Montes acelera o ritmo nesse ponto: encontros tensos, decisões precipitadas, desconfianças internas.
A amizade, que era o cimento da ideia, começa a rachar. Segredos dentro do segredo surgem. O leitor percebe que não é mais uma questão de “se” serão descobertos, mas de “como” isso vai acontecer.
O suspense que prende pelo detalhe
O estilo de Raphael Montes evita exageros. O horror não vem de descrições extensas, mas do contexto. Uma geladeira aberta, um saco fora do lugar, um vizinho curioso, um atraso inesperado. O livro prende porque transforma tarefas simples — cozinhar, limpar, sair de casa — em ações carregadas de risco.
Cada capítulo termina com a sensação de que a próxima decisão pode ser a última escolha equivocada do grupo.
LEIA MAIS: 6 livros brasileiros com menos de 200 páginas que vão destroçar seu coração




