A relação entre saúde mental e saúde cardiovascular tem ganhado cada vez mais respaldo científico e atenção de especialistas, especialmente durante o Janeiro Branco, mês dedicado à conscientização sobre o bem-estar emocional. Estudos recentes indicam que a depressão não afeta apenas o estado psicológico, mas também pode comprometer seriamente o funcionamento do coração, aumentando o risco de doenças cardiovasculares e de mortalidade.
Uma análise publicada no European Journal of Heart Failure, da Sociedade Europeia de Cardiologia, reuniu dados de 28 estudos e apontou que pessoas com depressão, mesmo sem histórico de problemas cardíacos, apresentam risco até 46% maior de desenvolver doenças cardiovasculares em comparação a indivíduos sem o transtorno. Em pacientes já diagnosticados com insuficiência cardíaca, o cenário se agrava: quadros leves de depressão aumentam o risco de morte, enquanto casos moderados ou graves podem elevar esse risco em até quatro vezes.
Especialistas explicam que essa ligação vai além do campo emocional. A depressão desencadeia respostas biológicas no organismo, como aumento do estresse crônico, inflamação sistêmica e alterações hormonais, que sobrecarregam o sistema cardiovascular. Essas mudanças dificultam o relaxamento do coração, aumentam o esforço cardíaco e favorecem o surgimento de arritmias, além de elevar o risco de formação de coágulos e eventos como infarto.
Outro ponto de atenção é o impacto da depressão no comportamento e na rotina do paciente. Pessoas deprimidas tendem a abandonar tratamentos, reduzir atividades físicas e apresentar alterações no sono e na alimentação, fatores que agravam doenças do coração. Estudos também indicam que o risco de suicídio é maior nos primeiros meses após o diagnóstico de insuficiência cardíaca, exigindo acompanhamento próximo e integrado nesse período.
A relação entre depressão e insuficiência cardíaca é considerada um ciclo de risco. Enquanto o transtorno mental pode contribuir para o surgimento ou agravamento de problemas cardíacos, a própria insuficiência cardíaca cria um ambiente favorável ao adoecimento emocional. Limitações físicas, perda de autonomia, internações frequentes e isolamento social são fatores que aumentam a vulnerabilidade psicológica dos pacientes.
O estresse intenso também entra nesse contexto como um fator relevante. Situações de trauma emocional ou físico podem desencadear a chamada Síndrome do Coração Partido, uma condição temporária, mas potencialmente grave, que afeta a capacidade do coração de bombear sangue. Embora geralmente reversível, em alguns casos pode evoluir para insuficiência cardíaca, reforçando a necessidade de atenção contínua à saúde mental.
Diante desse cenário, especialistas defendem um modelo de cuidado integrado, no qual mente e coração sejam tratados de forma conjunta. A combinação de acompanhamento psicológico, controle do estresse, prática de atividades físicas orientadas, exames regulares e adesão ao tratamento médico é considerada fundamental para reduzir riscos, melhorar a qualidade de vida e aumentar a sobrevida dos pacientes.
O Janeiro Branco reforça essa mensagem: cuidar da saúde mental é também uma estratégia de proteção ao coração. Reconhecer sinais de depressão, buscar ajuda especializada e adotar hábitos saudáveis pode fazer a diferença não apenas no equilíbrio emocional, mas também na prevenção de doenças cardiovasculares graves.
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