Uma escavação arqueológica realizada no sul da Noruega resultou na descoberta de um anel de ouro medieval adornado com pedra azul e elaborado trabalho em filigrana. O objeto foi encontrado no centro histórico de Tønsberg, considerada a cidade mais antiga do país, durante intervenções relacionadas à melhoria do sistema de drenagem urbana.
A peça foi identificada pela arqueóloga Linda Åsheim, do Instituto de Pesquisa em Herança Histórica da Noruega (NIKU), enquanto atuava em área localizada no cruzamento das ruas Storgaten e Prestegaten. O local integra o sítio protegido da Cidade Medieval de Tønsberg, onde, ao longo de duas temporadas de escavação, foram documentados vestígios de edificações, possíveis traçados viários, estruturas incendiadas com partes de telhado preservadas e um baluarte, compondo um panorama relevante da ocupação urbana medieval.
O anel foi encontrado a cerca de sete centímetros de profundidade, em área anteriormente utilizada para cultivo. Embora a camada arqueológica específica não tenha sido diretamente datada, um fragmento de galho de abeto localizado em estrato superior foi submetido a análise, com datação entre 1167 e 1269, fornecendo referências cronológicas para o contexto geral do sítio.
Fundada no século IX, Tønsberg desenvolveu-se nas proximidades do complexo do castelo real de Tunsberghus, associado à dinastia Yngling, e foi frequentada por membros da realeza e do clero ao longo da Idade Média. A relevância política e religiosa do local reforça a hipótese de que o anel tenha pertencido a pessoa de elevada posição social.
A peça apresenta uma pedra oval azul de tonalidade intensa, possivelmente uma safira, fixada em estrutura de ouro decorada com fios finamente torcidos e soldados, formando padrões espirais. Pequenas esferas de ouro, produzidas por técnica de granulação, completam a ornamentação. A combinação de filigrana e granulação é associada à tradição bizantina e teria chegado à Escandinávia no início da Idade Média, com influência também da ourivesaria carolíngia.
De acordo com Marianne Vedeler, professora do Museu de História Cultural da Universidade de Oslo, o repertório formal observado no anel, especialmente os padrões em espiral, é compatível com exemplares datados entre os séculos IX e XI. Embora existam peças semelhantes registradas na Noruega, na Inglaterra e na Dinamarca, como em Ullensaker e Roskilde, não há correspondência direta com o exemplar de Tønsberg, o que confere singularidade ao achado.
Ainda não está confirmado se a pedra central é uma safira natural ou uma imitação produzida em vidro colorido com cobalto. Técnicas antigas permitiam modificar a aparência de gemas por meio da aplicação de folhas metálicas em sua base, prática documentada desde a Antiguidade. Exames adicionais deverão esclarecer a natureza do material utilizado.
Independentemente da composição exata da gema, a cor azul possuía forte valor simbólico na Idade Média. Safiras eram associadas a poder espiritual, proteção e pureza, além de serem consideradas símbolos de autoridade e status. A utilização de anéis nesse período ultrapassava o valor econômico, podendo representar alianças, compromissos e distinção social.
O diâmetro estimado da peça corresponde à circunferência de um dedo entre 50 e 55 milímetros, o que sugere que o anel tenha pertencido a uma mulher. A qualidade do ouro, a complexidade técnica e a presença da pedra indicam que a proprietária provavelmente integrava a elite local.
Segundo dados do banco nacional de artefatos Unimus, cerca de 220 anéis de ouro estão registrados na Noruega, dos quais apenas 63 são datados da Idade Média. A última descoberta de anel de ouro em Tønsberg havia ocorrido há aproximadamente 15 anos. Nesse contexto, o achado reforça a importância arqueológica da cidade e contribui para o estudo das redes culturais e comerciais que conectavam a Escandinávia ao mundo bizantino e carolíngio.
A peça será submetida a análises complementares e integrada ao acervo para conservação e pesquisa. A descoberta amplia o conhecimento sobre práticas artesanais, circulação de estilos e expressão simbólica de poder no norte da Europa medieval.




