A nova adaptação de Frankenstein dirigida por Guillermo del Toro chega à Netflix como uma releitura que se afasta do terror tradicional para mergulhar em um drama psicológico denso, visualmente elegante e narrativamente paciente. Em vez de apostar em choques repentinos ou no medo imediato, o diretor escolhe acompanhar a deterioração gradual de um cientista convencido de que sua genialidade lhe concede o direito de ultrapassar limites morais e científicos.
Victor Frankenstein, interpretado por Oscar Isaac, surge como um homem articulado, brilhante e excessivamente seguro de si. Sua decisão de dar vida à criatura não aparece como um ato impulsivo, mas como o resultado de uma sucessão de escolhas marcadas por ambição, vaidade intelectual e desejo de reconhecimento. O filme constrói essa trajetória passo a passo, deixando claro que o verdadeiro conflito não está no ato de criar, mas na insistência em querer controlar sozinho aquilo que já escapou de qualquer previsibilidade.
A ambição como motor silencioso da tragédia
Del Toro desenha um Victor que se isola em seu laboratório, transformando o espaço em território exclusivo onde apenas sua autoridade prevalece. No início, esse isolamento favorece a rapidez dos avanços. Com o passar do tempo, no entanto, torna-se uma armadilha. Quanto menos pessoas participam do processo, menor é a chance de corrigir erros quando eles surgem.
A narrativa não apresenta grandes reviravoltas. O que sustenta o filme é o desgaste progressivo do protagonista, que acredita sempre ter mais uma solução, mesmo quando as alternativas já se esgotaram. Essa escolha estética e narrativa confere à obra um ritmo contemplativo e profundamente humano.
A criatura como presença que desestabiliza
Jacob Elordi interpreta a criatura de maneira contida e inquietante. Longe de ser um monstro explosivo, sua presença é incômoda porque expõe, silenciosamente, as falhas do criador. A simples existência do ser desmonta os planos de Victor e evidencia a fragilidade de sua tentativa de impor regras e limites.
A cada esforço para restabelecer o controle, o cientista revela sua própria perda de autoridade. O embate entre criador e criação acontece mais no campo psicológico do que no físico, reforçando o caráter introspectivo da obra.
Christoph Waltz representa a voz da cautela
No elenco, Christoph Waltz surge como contraponto à obsessão de Victor. Seu personagem simboliza experiência, prudência e consciência prática. Ele observa, questiona e sugere caminhos que poderiam reduzir danos, mas encontra resistência constante.
Victor até negocia em alguns momentos, mas omite informações quando convém, evidenciando que seu maior obstáculo não é a criatura, e sim sua própria incapacidade de admitir limites. Essa dinâmica cria uma tensão silenciosa que percorre todo o filme.

Visualmente, o laboratório assume papel central na narrativa. O espaço que inicialmente simboliza domínio passa a restringir movimentos, impor urgências e ampliar riscos. Cada improviso técnico gera novas limitações, e a câmera de del Toro registra essa transformação com atenção aos detalhes.
Sem precisar de explicações explícitas, o ambiente comunica a inversão de poder: Victor deixa de ser quem autoriza e passa a ser quem reage às consequências de suas escolhas.
Sem sustos fáceis, com tensão constante
Esta versão de Frankenstein não busca sustos rápidos nem finais explosivos. O impacto vem da constatação de que certas decisões, quando tomadas, estreitam todas as saídas possíveis. Del Toro transforma o clássico gótico em uma experiência poética sobre ambição, orgulho intelectual e os custos do excesso de confiança.
Há ainda um humor sutil, quase seco, na forma como Victor tenta justificar tecnicamente decisões que são, claramente, emocionais. O diretor observa essas contradições com ironia discreta, permitindo que o espectador perceba as falhas do personagem sem que elas sejam verbalizadas.
Ao adaptar a obra de Mary Shelley, del Toro não tenta modernizar a história com artifícios externos, mas aprofunda seus temas centrais: responsabilidade, limites éticos e a relação entre criador e criação. O resultado é um filme que dialoga com o presente ao tratar de questões universais.
Mais do que uma narrativa de terror, a produção se revela um estudo sobre a natureza humana e suas fragilidades diante do desejo de controle absoluto.
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