Fóssil de 125 milhões de anos encontrado em Alagoas revela peixe inédito

Fóssil de 125 milhões de anos encontrado em Alagoas revela peixe inédito

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Uma nova espécie de peixe fóssil, com idade estimada entre 120 e 125 milhões de anos, foi identificada por pesquisadores brasileiros a partir de exemplares preservados em acervo científico. O animal, denominado Gondwanacanthus decollatus, viveu durante o Cretáceo Inferior, quando o supercontinente Gondwana ainda passava pelo processo de fragmentação que resultaria na formação do Atlântico Sul. O material analisado foi coletado originalmente no estado de Alagoas, na bacia sedimentar Sergipe-Alagoas, e amplia de forma significativa o conhecimento sobre a evolução dos peixes com espinhos nas nadadeiras.

O estudo foi desenvolvido por especialistas vinculados à Universidade Federal de Mato Grosso e à Universidade de São Paulo, com base em fósseis depositados na coleção científica da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. A descrição formal da nova espécie foi publicada na revista científica Papers in Palaeontology.

Registro mais antigo de peixe com espinhos nas nadadeiras

O Gondwanacanthus decollatus pertence ao grupo Acanthomorpha, conjunto que reúne atualmente mais de 18 mil espécies de peixes caracterizados pela presença de raios espinhosos nas nadadeiras dorsal e pélvica. Esse grupo inclui espécies modernas amplamente conhecidas, como bacalhau, corvina, garoupa, linguado e robalo. Até então, os registros fósseis indicavam que esses peixes teriam surgido ou se diversificado principalmente no final do Cretáceo, com predominância no hemisfério norte.

A identificação do exemplar alagoano modifica esse entendimento ao demonstrar que representantes do grupo já estavam presentes no hemisfério sul cerca de 20 a 25 milhões de anos antes do que apontavam evidências anteriores. O fóssil passa a ser considerado o registro mais antigo conhecido de um peixe com espinhos verdadeiros nas nadadeiras.

Descoberta a partir de acervo científico

O reconhecimento da nova espécie ocorreu durante a revisão de materiais guardados na coleção de fósseis da PUC-RS. O espécime havia sido coletado há mais de duas décadas em uma pedreira localizada no município de São Miguel dos Campos, em Alagoas, na Formação Morro do Chaves. Desde então, permanecia preservado em museu, aguardando análise detalhada.

Os pesquisadores identificaram características anatômicas suficientes para propor não apenas uma nova espécie, mas também um novo gênero. O holótipo — exemplar principal utilizado na descrição científica — apresenta ausência da cabeça, resultado de um corte realizado durante a extração original da rocha. Essa condição influenciou a escolha do nome específico “decollatus”, termo em latim que significa “decapitado”.

Características anatômicas do Gondwanacanthus

Mesmo incompleto, o fóssil preserva informações relevantes sobre a morfologia do animal. A parte conservada indica um peixe de aproximadamente 24 centímetros de comprimento, com corpo alto e arredondado. As escamas são do tipo espinoide, com dentículos nas margens.

O traço determinante para sua classificação é a presença de espinhos verdadeiros, não segmentados, nas nadadeiras dorsal e pélvica. Outro aspecto considerado importante é a posição torácica das nadadeiras pélvicas, característica típica dos acantomorfos. Embora compartilhe atributos com espécies modernas, o Gondwanacanthus não pode ser diretamente associado a nenhuma família atual ou já descrita do grupo.

Fóssil de 125 milhões de anos encontrado em Alagoas revela peixe inédito
Foto: Divulgaçõo/Papers in Palaentology

Contexto geológico: Cretáceo e separação de Gondwana

A idade do fóssil foi estimada entre o final do Barremiano e o início do Aptiano, estágios do Cretáceo Inferior, período compreendido entre 145 e 66 milhões de anos atrás. Nesse intervalo, o supercontinente Gondwana encontrava-se em processo de fragmentação, com a abertura progressiva do Atlântico Sul.

Estudos geológicos indicam que o ambiente onde o peixe viveu era predominantemente continental, com influência marinha. Trata-se de um sistema de sedimentação aluvial-deltaica, cenário comum em áreas de transição entre rios e ambientes costeiros. Esse contexto contribuiu para a preservação do material fossilizado na região nordeste do Brasil.

Impacto científico e a chamada “lacuna de Patterson”

A descoberta também contribui para reduzir uma inconsistência histórica no registro fóssil conhecida como “lacuna de Patterson”. Esse intervalo sugeria ausência de registros de peixes acantomorfos no início do Cretáceo, o que criava divergência entre evidências paleontológicas e análises genéticas que apontavam para uma origem mais antiga do grupo.

Com a descrição do Gondwanacanthus decollatus, a paleontologia passa a apresentar evidência concreta da presença desses peixes no Cretáceo Inferior, no hemisfério sul. O achado aproxima os dados fósseis das estimativas baseadas em estudos de DNA, fortalecendo hipóteses sobre a evolução precoce e a ampla distribuição geográfica inicial do grupo.

Relevância das bacias sedimentares brasileiras

A identificação do novo peixe fóssil reforça a importância das formações geológicas brasileiras para o estudo da biodiversidade antiga. A bacia Sergipe-Alagoas já é reconhecida por sua riqueza paleontológica e, com essa descoberta, consolida-se como área estratégica para compreender a evolução da fauna durante a separação continental.

Além do valor científico, o achado evidencia o papel das coleções museológicas na produção de conhecimento. Materiais preservados por décadas podem revelar informações inéditas quando submetidos a novas análises e metodologias.

A descrição do Gondwanacanthus decollatus amplia o entendimento sobre a história evolutiva dos peixes com espinhos nas nadadeiras e altera a cronologia aceita para a presença desses animais no hemisfério sul. Ao mesmo tempo, destaca o potencial das formações geológicas brasileiras como fonte de dados fundamentais para reconstruir capítulos decisivos da história da vida na Terra. A pesquisa reafirma que, mesmo após milhões de anos, o subsolo ainda guarda respostas capazes de transformar interpretações científicas consolidadas.

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