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Fome silenciosa: a privação alimentar que pode levar a convulsões e colocar o cérebro em risco

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A fome costuma ser tratada como algo passageiro, um desconforto que pode ser ignorado ou até romantizado em nome de disciplina, estética ou desempenho. No entanto, quando a privação de alimento se prolonga, o impacto sobre o organismo deixa de ser apenas físico e passa a representar um risco real à saúde neurológica. O corpo humano depende de energia constante para funcionar, e o cérebro, em especial, exige um suprimento contínuo de glicose para manter suas atividades elétricas em equilíbrio.

Quando esse combustível falta, o sistema nervoso entra em estado de alerta. A ausência prolongada de nutrientes pode provocar uma queda acentuada nos níveis de glicose no sangue, condição conhecida como hipoglicemia. Em casos graves, esse desequilíbrio compromete o funcionamento dos neurônios, que passam a disparar impulsos de forma desordenada, abrindo caminho para crises convulsivas. Trata-se de uma emergência médica que pode levar à perda de consciência, confusão mental, danos cerebrais e, em situações extremas, ao coma.

O cérebro consome cerca de 20% de toda a energia do corpo, mesmo em repouso. Diferentemente de outros órgãos, ele não consegue armazenar glicose em quantidade suficiente para longos períodos. Isso significa que, sem alimentação regular, o risco de colapso neurológico aumenta rapidamente. A fome prolongada não é apenas uma sensação desagradável: ela altera profundamente o funcionamento cerebral.

A nutricionista clínica e esportiva Thainara Gottardi alerta que a privação alimentar não deve ser encarada como algo inofensivo. “Ficar muito tempo sem comer não é uma prova de força de vontade ou autocontrole. É uma agressão direta ao sistema nervoso central, que pode desencadear convulsões e causar danos irreversíveis”, afirma. Segundo ela, o organismo entra em modo de sobrevivência, sacrificando funções essenciais para tentar manter o mínimo de equilíbrio.

Além da glicose, outros elementos desempenham papel fundamental na transmissão dos impulsos nervosos. Minerais como cálcio, magnésio e sódio são essenciais para a condução elétrica entre os neurônios. Durante períodos prolongados de jejum extremo, dietas muito restritivas ou desnutrição, a deficiência desses nutrientes se torna comum. Esse cenário aumenta ainda mais a instabilidade neurológica e eleva o risco de crises convulsivas.

O impacto da fome prolongada não se limita ao cérebro. O corpo como um todo sofre com a escassez de nutrientes. Hormônios responsáveis pelo controle do estresse, da fome e da saciedade entram em desregulação. O sistema imunológico se enfraquece, tornando o organismo mais vulnerável a infecções. Funções cardiovasculares, musculares e metabólicas também são comprometidas, criando um efeito cascata de prejuízos à saúde.

Casos de convulsão associados à privação alimentar são mais frequentes do que se imagina, especialmente entre pessoas com transtornos alimentares, como anorexia nervosa, ou adeptos de dietas extremas sem acompanhamento profissional. Nessas situações, a convulsão surge como um sinal-limite do organismo, indicando que as reservas energéticas se esgotaram e que o corpo já não consegue manter suas funções básicas de forma segura.

“A alimentação vai muito além de calorias ou controle de peso”, reforça Thainara Gottardi. “Ela é a base da vida, da saúde mental e do equilíbrio emocional. Negar alimento ao corpo é abrir espaço para um colapso físico e neurológico”. A especialista destaca que práticas que incentivam longos períodos sem comer, desafios de resistência alimentar ou jejuns prolongados sem critério podem ter consequências graves, especialmente para pessoas predispostas a distúrbios metabólicos.

Outro ponto preocupante é que os sinais de hipoglicemia nem sempre são reconhecidos a tempo. Tontura, sudorese fria, tremores, confusão mental, visão turva e irritabilidade costumam anteceder crises convulsivas. Ignorar esses sintomas e insistir na privação alimentar pode transformar um alerta do corpo em uma situação de risco imediato à vida.

Em um cenário em que dietas radicais e desafios extremos são frequentemente divulgados nas redes sociais, especialistas alertam para a necessidade de responsabilidade e informação. A fome não deve ser vista como virtude, método de autocontrole ou prova de resistência. O organismo humano não foi projetado para suportar longos períodos sem alimento, e forçar esse limite pode ter consequências irreversíveis.

Em síntese, a privação alimentar prolongada não é inofensiva nem deve ser banalizada. O risco de hipoglicemia grave e convulsões é real e pode transformar uma busca por controle corporal em uma luta pela própria sobrevivência. Alimentar-se de forma adequada e regular não é excesso: é uma necessidade vital para o cérebro, para o corpo e para a saúde como um todo.

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