O filme em que Julia Roberts transforma uma crise conjugal em um processo lento de reconstrução pessoal

O filme em que Julia Roberts transforma uma crise conjugal em um processo lento de reconstrução pessoal

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Liz Gilbert não foge da própria vida em disparada. Em Comer, Rezar, Amar, a ruptura acontece devagar, como quem percebe que continuar exige mais esforço do que parar. O filme começa com um casamento que não se sustenta mais por hábito do que por conflito explícito. Não há traição escancarada nem escândalo. Há silêncio, culpa e uma sensação constante de inadequação. Liz não sabe exatamente o que quer, mas sabe o que não consegue mais sustentar. A decisão de ir embora não vem como libertação imediata; vem acompanhada de desgaste emocional, acordos legais, noites mal dormidas e um vazio que o dinheiro não resolve.

A viagem nasce menos como aventura e mais como método. Liz organiza o roteiro como quem estabelece um plano de sobrevivência emocional: Itália para recuperar o prazer, Índia para lidar com o ruído interno, Indonésia para testar se ainda existe espaço para equilíbrio. Não é um impulso turístico, é uma tentativa deliberada de reorganizar o próprio eixo. O filme deixa claro que mudar de país não elimina conflitos, apenas muda o cenário em que eles reaparecem.

Na Itália, o foco não está em paisagens amplas, mas no cotidiano. Liz aprende a ocupar o tempo sem culpa, algo que ela claramente desaprendeu. As refeições não são exibidas como fetiche gastronômico, mas como exercício de presença. Comer vira um gesto consciente, quase terapêutico. O prazer aparece quando ela para de se vigiar o tempo todo, quando aceita engordar, errar o idioma, repetir prato e ficar sentada sem produzir nada. A câmera acompanha esse ritmo mais lento, com cenas que se estendem o suficiente para o desconforto inicial se transformar em alívio.

O filme em que Julia Roberts transforma uma crise conjugal em um processo lento de reconstrução pessoal

A passagem pela Índia muda completamente o tom. O filme abandona a leveza e assume o atrito. Liz não encontra iluminação instantânea, encontra resistência. A disciplina do ashram exige repetição, silêncio e confronto direto com pensamentos que ela vinha evitando. O conflito com Richard, personagem que funciona como espelho incômodo, não surge para aconselhar, mas para desmontar a autoindulgência. A espiritualidade apresentada ali não é estética nem confortável. É rotina dura, cheia de recaídas, em que rezar significa insistir mesmo quando nada acontece.

O filme em que Julia Roberts transforma uma crise conjugal em um processo lento de reconstrução pessoal

A Indonésia entra como etapa de ajuste, não como recompensa. Em Bali, Liz tenta aplicar o que aprendeu, mas descobre que equilíbrio não é estado permanente. A relação com Ketut funciona menos como ensinamento exótico e mais como contraponto prático: alguém que vive com pouco, mas com clareza. O romance com Felipe não é apresentado como solução emocional, e o filme faz questão de mostrar o medo que antecede qualquer entrega. Amar, aqui, não é euforia; é risco consciente depois de um histórico de perdas.

O filme em que Julia Roberts transforma uma crise conjugal em um processo lento de reconstrução pessoal

Julia Roberts conduz Liz com contenção. O filme evita discursos longos e aposta em expressões pequenas, pausas, olhares que duram um segundo a mais. O conflito interno da personagem aparece mais nas hesitações do que nas falas. Quando Liz ri, há sempre um atraso. Quando se emociona, quase pede desculpa. Essa escolha impede que a história vire manifesto de autoajuda e mantém a narrativa ancorada em experiência concreta.

A direção opta por uma estética limpa, mas funcional. Os países não são cartões-postais gratuitos. Itália aparece como lugar de convivência, Índia como espaço de repetição e Indonésia como ponto de negociação entre passado e futuro. O filme não acelera resoluções. Ao contrário, deixa claro que cada etapa resolve apenas uma parte do problema, e que o restante continua ali, esperando o próximo movimento.

O mérito de Comer, Rezar, Amar está em não vender transformação instantânea. A mudança é fragmentada, cheia de retornos e dúvidas. Liz não termina o filme “curada”. Termina mais consciente do próprio funcionamento, o que é bem diferente. O prazer do filme está em acompanhar esse processo sem atalhos narrativos, entendendo que reconstruir uma vida não exige um grande gesto final, mas uma sequência de escolhas menores feitas com mais honestidade.

  • Filme: Comer Rezar Amar
  • Diretor: Ryan Murphy
  • Ano: 2010
  • Gênero: Romance, Comédia, Melodrama, Drama, Comédia dramática
  • Avaliação: 9/10 
  • ★★★★★

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