A redescoberta de um artefato escavado há mais de três décadas no sul da Inglaterra está oferecendo novas pistas sobre a engenhosidade dos ancestrais humanos. Pesquisadores do University College London e do Museu de História Natural de Londres identificaram, entre os materiais do sítio paleolítico de Boxgrove, uma ferramenta de aproximadamente 500 mil anos feita de osso de elefante — possivelmente mamute — utilizada para manter e restaurar instrumentos de pedra.
O objeto, inicialmente catalogado nos anos 1990, passou por análises recentes com escaneamento 3D e microscopia eletrônica. Os exames revelaram entalhes, marcas de impacto e até fragmentos microscópicos de sílex incrustados na superfície do osso. Esses indícios levaram os cientistas à conclusão de que o artefato funcionava como um “retocador”, instrumento usado para afiar e reajustar lâminas e pontas de pedra após o uso.
Boxgrove e a arqueologia do Paleolítico europeu
O sítio arqueológico de Boxgrove é um dos mais importantes da Europa quando se trata do período Paleolítico Inferior. Ali já foram encontrados fósseis humanos, ferramentas de sílex e vestígios de grandes animais pré-históricos. A presença desse retocador de osso amplia a compreensão sobre a diversidade de materiais empregados por hominídeos na fabricação e manutenção de seus utensílios.
Segundo o pesquisador Simon Parfitt, o osso de elefante apresentava uma combinação incomum de propriedades: mais macio que a pedra, mas mais resistente do que ossos de outros animais. Isso tornava o material raro e extremamente eficiente para o trabalho delicado de retoque de ferramentas líticas, sugerindo que o objeto possuía valor significativo para o grupo que o utilizava.
Quem produziu a ferramenta de osso?
Pela datação estimada, o artefato pode ter sido confeccionado por neandertais primitivos ou por representantes do Homo heidelbergensis, espécie considerada ancestral tanto dos neandertais quanto dos humanos modernos. A sofisticação do uso do osso como ferramenta auxiliar indica um nível de planejamento técnico e conhecimento material que vai além do que se imaginava para esse período.
A descoberta reforça a ideia de que esses grupos não dependiam apenas da pedra, mas exploravam recursos disponíveis no ambiente de maneira estratégica e funcional, adaptando diferentes matérias-primas às suas necessidades cotidianas.
O uso de tecnologias atuais foi decisivo para a identificação da função do artefato. As imagens em alta resolução permitiram observar microfraturas e resíduos invisíveis a olho nu. A presença de sílex nos sulcos do osso confirmou a hipótese de que o objeto era repetidamente utilizado no contato direto com ferramentas de pedra.
O estudo foi publicado na revista científica Science Advances e amplia o entendimento sobre a chamada “caixa de ferramentas” dos hominídeos do Paleolítico. Evidências semelhantes já haviam sido encontradas na Tanzânia, em instrumentos ainda mais antigos feitos com ossos de elefante, sugerindo que esse tipo de conhecimento técnico pode ter sido mais difundido do que se imaginava.
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