Evelyn Hugo entra em cena com controle absoluto do próprio tempo. Ela escolhe o dia, o local, o assunto e, principalmente, a pessoa que vai ouvir sua história. Não há pressa, mas há método. Ao chamar uma jornalista pouco conhecida para registrar suas memórias, Evelyn não busca redenção nem simpatia. Quer precisão. Quer que cada versão esteja no lugar certo, que cada silêncio funcione como moldura. “Os Sete Maridos de Evelyn Hugo” se constrói a partir desse pacto inicial, contar tudo, mas do seu jeito.
O romance acompanha essa conversa prolongada, interrompida por cafés, pausas estratégicas e mudanças de humor, como se cada capítulo fosse uma tomada ensaiada. Evelyn fala de carreira, de contratos, de casamentos que funcionaram como degraus, proteção ou distração. Nada ali é gratuito. Cada relação tem função, cada escolha cobra um preço, e o livro avança como quem organiza uma filmografia, um sucesso abre caminho para o próximo, um erro exige correção imediata.
Os Sete Maridos de Evelyn Hugo
Em Os Sete Maridos de Evelyn Hugo, o título não é um artifício chamativo, mas a estrutura central da narrativa. Cada marido corresponde a uma fase concreta da carreira de Evelyn, desde a ascensão inicial em Hollywood até o período de consolidação como estrela. Os casamentos funcionam como contratos sociais, estratégias de sobrevivência e, em alguns casos, tentativas de proteção dentro de uma indústria que limita escolhas, controla imagem pública e pune desvios. O livro deixa explícito que amor e conveniência raramente caminham juntos nesse contexto. Evelyn aprende cedo que visibilidade exige concessões e que esconder parte da própria vida não é escolha estética, mas condição para continuar trabalhando.
A narrativa avança de forma cumulativa. Cada casamento esclarece decisões anteriores e corrige a percepção inicial do leitor sobre a protagonista. Relações que parecem superficiais ganham sentido quando o contexto é revelado: a pressão dos estúdios, os contratos de exclusividade, a necessidade de manter uma imagem heteronormativa e a vigilância constante da imprensa. O livro não aposta em grandes viradas repentinas, mas em revelações progressivas que reposicionam a história. O impacto surge quando o leitor percebe que julgou Evelyn com informações incompletas, exatamente como o público dentro do próprio livro fez ao longo dos anos.

A jornalista Monique Grant não está ali apenas para ouvir. Sua presença é funcional para a trama, pois cria um contraste entre quem construiu uma carreira sob regras rígidas e quem tenta se afirmar profissionalmente em outro tempo histórico. Enquanto Evelyn controla cada lembrança que decide expor, Monique lida com limites éticos, curiosidade profissional e envolvimento emocional crescente. A relação entre as duas se desenvolve de forma discreta, sustentada por escolhas narrativas claras: perguntas evitadas, respostas calculadas e pausas que carregam mais informação do que longos diálogos explicativos.
Hollywood é retratada de maneira objetiva e pragmática. Estúdios, festas e capas de revista aparecem como espaços de negociação, não de glamour. O livro detalha como decisões pessoais são atravessadas por interesses econômicos e expectativas morais da época. Evelyn não romantiza esse ambiente. Ela descreve o sucesso como algo que exige disponibilidade constante, controle absoluto da imagem e, frequentemente, renúncia afetiva. O brilho existe, mas sempre acompanhado de risco, desgaste e vigilância.
O ritmo da narrativa acompanha esse funcionamento. A autora retorna a episódios já narrados para acrescentar informações decisivas, alterando o sentido original das cenas. Um casamento que parecia irrelevante se revela essencial. Um gesto interpretado como frieza passa a ser entendido como autopreservação. O leitor é levado a revisar julgamentos à medida que o passado é recontado com mais precisão, o que reforça a ideia central do livro: nenhuma história pública é completa sem acesso aos bastidores.
No trecho final, o livro não busca absolver Evelyn nem transformá-la em heroína. O que se constrói é um fechamento coerente com tudo o que foi apresentado antes. As escolhas se encaixam, os silêncios ganham explicação e a narrativa se conclui como foi conduzida desde o início: sob controle. Evelyn não pede compreensão irrestrita. Ela apresenta sua versão final sabendo que, ao dominar a própria história, mantém o último espaço de poder que lhe resta.
- Livro: Os Sete Maridos de Evelyn Hugo
- Autor (a): Taylor Jenkins Reid
- Ano: 2017
- Gênero: Romance, Romance de amor, Ficção histórica
- Avaliação: 9,5/10
- ★★★★★
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