geoglifos

Estudo revela gigantesca civilização avançada que viveu na Amazônia e no Pantanal antes da descoberta do Brasil

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Pesquisas arqueológicas e científicas vêm ampliando de forma consistente o conhecimento sobre a ocupação do território brasileiro antes da chegada dos europeus. Evidências reunidas nas últimas décadas indicam que extensas áreas do atual Brasil foram habitadas, organizadas e transformadas por sociedades indígenas com elevado grau de complexidade social, técnica e ambiental, contrariando interpretações mais antigas que descreviam essas regiões como pouco ocupadas ou intocadas.

Trabalhos desenvolvidos em regiões como a Amazônia e o Pantanal apontam a existência de populações capazes de planejar o uso do espaço, construir obras de terra, produzir artefatos elaborados e manejar o ambiente de forma contínua ao longo de séculos ou milênios. Escavações arqueológicas, análises de solo e estudos paleoambientais mostram que essas sociedades desenvolveram estratégias adaptadas às condições locais, transformando a paisagem de maneira duradoura.

Na Amazônia, pesquisas realizadas em áreas como o Alto Xingu identificaram conjuntos de assentamentos interligados por caminhos escavados e organizados em torno de espaços coletivos. De acordo com os pesquisadores, esse padrão indica formas de organização regional e planejamento territorial que não se enquadram nos modelos urbanos europeus, mas revelam sistemas complexos, adaptados às características ambientais da floresta tropical.

O avanço tecnológico tem sido decisivo para essas descobertas. Além das escavações tradicionais, o uso de imagens de satélite e de tecnologias como o LiDAR possibilitou a identificação de estruturas no relevo sob a cobertura florestal, sem a necessidade de grandes intervenções no ambiente. Essas ferramentas vêm permitindo o mapeamento de valas, caminhos e elevações artificiais associadas a ocupações humanas prolongadas, ampliando significativamente o número de sítios conhecidos.

Entre os principais indicadores de presença humana contínua na Amazônia está a chamada Terra Preta de Índio. Estudos conduzidos por instituições brasileiras mostram que esse solo escuro e altamente fértil está frequentemente associado a sítios arqueológicos e resulta de processos cumulativos ligados à atividade humana. Análises químicas e datações indicam que parte desses depósitos tem milhares de anos. Além de sua fertilidade, a Terra Preta funciona como marcador de ocupação prolongada e tem sido fundamental para a revisão de mapas de ocupação antiga da região, antes considerados esparsos.

No sudoeste da Amazônia, especialmente no Acre, levantamentos arqueológicos identificaram centenas de geoglifos formados por valetas escavadas no solo, com figuras geométricas de grandes dimensões, como círculos e quadrados.

Registros do IPHAN indicam que o número de sítios conhecidos aumentou à medida que novas áreas passaram a ser analisadas com o apoio de imagens aéreas e sensoriamento remoto. A função dessas estruturas ainda é objeto de pesquisa, mas parte da literatura científica sugere que muitos desses espaços eram destinados a atividades coletivas, e não residenciais, hipótese baseada na ausência de vestígios domésticos e na escala das construções. Estimativas apontam que algumas dessas obras podem ter cerca de 2,5 mil anos.

No Pantanal, as evidências arqueológicas refletem a adaptação a um ambiente marcado por cheias sazonais. Estudos acadêmicos descrevem a presença de aterros e montículos artificiais, interpretados como soluções técnicas para a ocupação humana em áreas sujeitas a inundações periódicas. Datações indicam que algumas dessas ocupações remontam a milhares de anos. Pesquisadores ressaltam que, embora o Pantanal não apresente necessariamente os mesmos padrões de estradas e redes de assentamentos observados em partes da Amazônia, os vestígios indicam formas próprias de organização social e transformação da paisagem.

A cultura material constitui uma das principais fontes para compreender essas sociedades. Na Ilha do Marajó, a cerâmica marajoara é reconhecida por urnas funerárias e objetos decorados, frequentemente associados a contextos rituais. Pesquisas acadêmicas e acervos museológicos descrevem técnicas de modelagem, pintura e queima que indicam alto grau de especialização artesanal e um repertório simbólico complexo. Na região do Tapajós, especialmente no entorno de Santarém, estudos analisam conjuntos cerâmicos associados à chamada cultura Santarém ou tapajônica, investigando estilos, funções e contextos desses objetos, estudados desde o início do século XX.

Quando se trata de períodos mais antigos, a discussão se amplia para a chamada megafauna brasileira, composta por grandes mamíferos como preguiças-gigantes e gliptodontes, que viveram no final do Pleistoceno. A maioria dessas espécies foi extinta há dezenas de milhares de anos, em um processo ainda investigado por paleontólogos e arqueólogos. Pesquisas buscam esclarecer o papel das mudanças climáticas e das atividades humanas, sem consenso definitivo. No Brasil, fósseis e contextos arqueológicos são analisados para verificar possíveis interações entre humanos e esses animais.

Em relação aos registros visuais, como pinturas rupestres, os pesquisadores adotam cautela. Em sítios como os do Parque Nacional da Serra da Capivara, há painéis com representações de fauna, mas a identificação de espécies extintas depende de análises específicas e não pode ser generalizada para todo o conjunto conhecido.

O conjunto dessas evidências indica que a história antiga do território brasileiro envolve diferentes escalas temporais e formas de ocupação. De sociedades indígenas com obras de terra, manejo ambiental e produção artística sofisticada a ecossistemas mais antigos marcados pela presença de grandes mamíferos hoje extintos, os dados disponíveis reforçam a necessidade de revisar interpretações simplificadas sobre o passado pré-colonial do Brasil.

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