Uma descoberta arqueológica realizada em Fano, cidade do leste da Itália, reacendeu o interesse internacional pela obra de Marco Vitrúvio Polião, arquiteto e engenheiro romano do século I a.C. Vestígios estruturais encontrados em 2023 foram recentemente associados à basílica mencionada no Livro V do tratado De Architectura, texto clássico que orientou gerações de construtores ao longo da Antiguidade e influenciou profundamente a arquitetura ocidental.
A identificação foi divulgada por veículos italianos e confirmada por pesquisadores envolvidos na análise do sítio. As características do edifício — planta retangular envolvida por um peristilo de colunas — coincidem de forma notável com a descrição detalhada feita por Vitrúvio em sua obra. O reconhecimento do local como possível materialização do texto antigo transforma um registro literário em evidência física, tangível e visitável.
No De Architectura, Vitrúvio descreve a basílica com proporções rigorosas e distribuição simétrica de colunas. Segundo o tratado, a estrutura apresentava colunas robustas, com cerca de 1,5 metro de diâmetro e aproximadamente 15 metros de altura. Oito colunas alinhavam-se ao longo dos lados maiores do edifício, enquanto quatro ocupavam os lados menores, formando um peristilo harmonioso ao redor do espaço central.
Os elementos identificados em Fano seguem esse padrão geométrico com precisão incomum. A correspondência entre texto e vestígio arqueológico chamou a atenção dos especialistas, que consideram a descoberta uma das mais relevantes para o estudo da arquitetura romana nos últimos anos.
Fano, antiga Fanum Fortunae, foi uma cidade estratégica durante o período romano. Sua importância política e econômica ajuda a explicar a presença de uma construção monumental como a basílica descrita por Vitrúvio. Esses edifícios tinham funções administrativas, jurídicas e comerciais, servindo como centros de convivência pública.
A nova identificação reforça a relevância histórica da cidade e amplia a compreensão sobre a aplicação prática dos conceitos arquitetônicos vitruvianos fora de Roma. Até então, a basílica era conhecida apenas por meio da literatura técnica preservada ao longo dos séculos.

Do manuscrito à escavação arqueológica
Durante séculos, estudiosos interpretaram o De Architectura como uma referência teórica, um guia de princípios construtivos que influenciou o Renascimento e moldou a arquitetura clássica europeia. A possibilidade de localizar uma obra diretamente ligada às descrições do autor cria uma ponte rara entre teoria e prática.
Para os pesquisadores, trata-se de um momento singular: o que era conhecido apenas por registros escritos agora pode ser observado no terreno, analisado em seus materiais, dimensões e disposição espacial.
Conservação e futura visitação pública
Autoridades locais anunciaram que os próximos passos envolvem a preservação dos vestígios e a preparação do espaço para visitação. A proposta é transformar o sítio arqueológico em um ponto de interesse cultural e turístico, ampliando o acesso do público a um dos possíveis marcos materiais da arquitetura clássica.
O prefeito de Fano, Luca Serfilippi, destacou que a descoberta representa a concretização de séculos de estudos baseados apenas em textos. Para ele, o local oferece uma oportunidade única de tornar palpável uma referência fundamental da engenharia e da arquitetura antigas.
Marco Vitrúvio Polião é considerado uma das figuras centrais da história da arquitetura. Seu tratado estabeleceu princípios que atravessaram milênios, como a busca pelo equilíbrio entre utilidade, solidez e beleza. Suas ideias influenciaram diretamente arquitetos renascentistas, como Leonardo da Vinci e Andrea Palladio.
A possível identificação da basílica em Fano reforça a importância histórica do autor e oferece um novo campo de estudos para arqueólogos, arquitetos e historiadores interessados na materialidade das teorias clássicas.
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