Pesquisadores investigam há mais de uma década um sítio arqueológico no sudoeste da Eslováquia onde foram encontrados dezenas de restos mortais humanos sem cabeça. O local, associado a um assentamento de aproximadamente 7 mil anos, fica próximo à cidade de Vráble e tem sido analisado por equipes da Universidade de Kiel, na Alemanha, e da Academia Eslovaca de Ciências, em Nitra.
O estudo mais recente, publicado em 2 de junho na revista científica Proceedings of the Prehistoric Society, descreve a análise de 78 indivíduos identificados no assentamento. Segundo os pesquisadores, 77 estavam sem cabeça, enquanto apenas o esqueleto de uma criança foi encontrado com o crânio preservado.
O assentamento pertence ao período Neolítico e teria sido habitado entre cerca de 5.250 e 4.950 a.C. De acordo com os autores da pesquisa, a área era formada por três setores de moradia, com aproximadamente 80 casas ocupadas ao mesmo tempo em determinado período. Um desses setores era cercado por um fosso, onde os arqueólogos localizaram a maior concentração dos restos mortais.
As análises indicam que a ausência das cabeças não parece estar relacionada, necessariamente, a atos de violência direta. Conforme a coautora do estudo, Katharina Fuchs, os corpos apresentam sinais de manipulação intencional. Para os pesquisadores, a forma como os restos foram encontrados sugere remoções feitas com habilidade, o que amplia as hipóteses sobre práticas culturais da época.

Uma das possibilidades consideradas pelos cientistas é que a retirada da cabeça fizesse parte de costumes funerários ou rituais presentes em determinadas comunidades pré-históricas. Em outras sociedades antigas, há registros de práticas envolvendo a separação e preservação de crânios, possivelmente ligadas à memória dos mortos, a crenças espirituais ou à organização social.
Outra hipótese é que a concentração de restos mortais no fosso possa estar associada a um período de instabilidade, conflitos ou mudanças internas na comunidade. Os pesquisadores ressaltam, no entanto, que ainda não há uma conclusão definitiva sobre o motivo da prática observada em Vráble.
O coautor do estudo, Nils Müller-Scheeßel, afirmou que a interpretação desses achados exige cautela, já que as práticas sociais do Neolítico estavam inseridas em contextos muito diferentes dos atuais. Segundo ele, justamente essa distância cultural torna a análise mais complexa para a arqueologia contemporânea.
A pesquisa ainda deve avançar com novas etapas de investigação. Os cientistas pretendem ampliar a identificação dos esqueletos, incluindo sexo biológico, idade aproximada no momento da morte e possíveis sinais de lesões ou doenças. Exames de DNA também poderão ajudar a compreender a origem dos indivíduos, seus hábitos alimentares e eventuais relações de parentesco.
Para Martin Furholt, principal autor do estudo, o sítio de Vráble é considerado raro pela quantidade e pela preservação dos materiais encontrados. Segundo ele, os resultados obtidos até agora contribuem para ampliar o conhecimento sobre as primeiras sociedades agrícolas da região e sobre a forma como essas comunidades lidavam com a morte, a organização coletiva e possíveis transformações sociais.
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Apaixonada pela literatura brasileira e internacional, Heloísa Montagner Veroneze é reatora de artigos locais e regionais, com experiência em temas diversos, especialmente sobre livros, arqueologia e curiosidades.
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