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Escavação na França revela vestígios de forca do século 16 e práticas de repressão nas guerras religiosas

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Uma escavação arqueológica realizada na entrada norte de Grenoble, no sudeste da França, revelou os vestígios de uma antiga forca do século 16, utilizada para a exposição e o tratamento pós-morte de pessoas condenadas à pena capital.

A descoberta foi anunciada pelo Instituto Nacional de Pesquisa Arqueológica Preventiva da França (Inrap) e fornece um testemunho material direto das práticas repressivas vigentes durante o período das guerras religiosas no país.

Os trabalhos ocorreram na região conhecida como Esplanade, situada entre os rios Isère e Drac. Até o início do século 17, essa área apresentava características pantanosas e era frequentemente afetada por inundações.

Ao longo dos séculos, o espaço passou por sucessivas transformações, sendo progressivamente drenado e ocupado para diferentes finalidades, como extração de areia e madeira, atividades recreativas da aristocracia, exercícios e acampamentos militares, celebrações públicas e, mais recentemente, áreas de lazer.

A análise estratigráfica conduzida pelo Inrap identificou uma alternância de depósitos aluviais e aterros, o que permitiu reconstituir o processo gradual de ocupação e estabilização de um terreno originalmente instável.

Foi nesse contexto que os arqueólogos identificaram, no limite da área escavada, uma estrutura quadrangular em alvenaria que não possuía correspondentes claros na documentação histórica local. No interior e nas proximidades do muro norte dessa construção, foram localizadas dez fossas contendo sepultamentos múltiplos, algumas datadas do século 16.

Ao todo, foram contabilizadas pelo menos 32 ossadas, majoritariamente de homens, dispostas de maneira desordenada, em contato direto, sem orientação predominante e sem qualquer evidência de rituais funerários. A ausência de cuidados com os corpos indica um tratamento pós-morte degradante e incompatível com as práticas funerárias cristãs da época.

Diante desse conjunto de indícios, diferentes hipóteses foram inicialmente levantadas sobre a função do local, incluindo a possibilidade de se tratar de um abrigo religioso, uma capela ou uma vala comum associada a conflitos armados. A identificação definitiva da estrutura, no entanto, só foi possível após o cruzamento dos dados arqueológicos com fontes documentais.

Registros contábeis relacionados a obras públicas e a um projeto de carpintaria cujas dimensões coincidiam com as fundações encontradas permitiram reconhecer o edifício como a antiga forca de Grenoble, conhecida historicamente como o gibet do Port de la Roche.

Os documentos indicam que a forca foi construída entre os anos de 1544 e 1547. A estrutura consistia em uma base quadrada com 8,2 metros de lado, sobre a qual se erguiam oito pilares de pedra encimados por capitéis. Esses elementos sustentavam uma complexa armação de madeira instalada a cerca de cinco metros de altura.

O conjunto foi edificado sobre uma ligeira elevação da planície aluvial, estratégia adotada para reduzir os efeitos das cheias. No lado oriental, um fosso de drenagem complementava a obra, possivelmente desempenhando também uma função simbólica de delimitação do espaço associado à justiça.

A presença de oito pilares confere singularidade ao monumento. Segundo o Inrap, o número de colunas estava diretamente ligado ao estatuto da jurisdição no Antigo Regime. Justiças senhoriais dispunham de estruturas com dois a seis pilares, enquanto o famoso gibet real de Montfaucon, em Paris, possuía até 16. A forca de Grenoble, portanto, refletia a importância intermediária da autoridade judicial local.

As execuções não ocorriam no local da forca, mas sim em área urbana, na Place aux Herbes, no centro da cidade. Após a execução, os corpos dos condenados eram transportados para fora dos muros e expostos no gibet do Port de la Roche. Arquivos judiciais analisados pelos pesquisadores permitem identificar alguns dos indivíduos ali exibidos, em um contexto no qual a pena de morte não era aplicada de forma frequente.

Entre os condenados estavam principalmente pessoas consideradas rebeldes à autoridade real, com destaque para protestantes, como Benoît Croyet, acusado em 1573 de participar de um ataque contra Grenoble, e Charles Du Puy Montbrun, líder executado em 1575.

Nem todos os corpos expostos na forca foram enterrados no local, mas aqueles identificados na escavação foram submetidos a práticas que reforçavam o caráter punitivo da condenação. Os indivíduos foram privados de sepultura cristã e lançados em fossas simples, por vezes fragmentados, sobrepostos ou remanejados, sem qualquer cuidado funerário.

Em uma grande fossa central, por exemplo, depósitos sucessivos de corpos inteiros antecederam a deposição de restos ósseos desconectados, enquanto em outras áreas há indícios de enterros simultâneos de vários condenados.

Para os arqueólogos do Inrap, esse tipo de sepultamento prolongava simbolicamente a punição além da morte, inscrevendo no espaço e nos corpos a ideia de desonra e de “má morte”.

A forca do Port de la Roche foi erguida em um período marcado pelo endurecimento da repressão contra a Reforma e pode ter permanecido em uso até o início do século 17, quando políticas de pacificação religiosa passaram a ganhar maior relevância na França.

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