Moedas de ouro celtas extremamente raras, encontradas em uma área florestal próxima à localidade de Arisdorf, no noroeste da Suíça, estão contribuindo para ampliar o entendimento sobre as fases iniciais da cunhagem na região e sobre práticas simbólicas associadas às comunidades celtas há mais de dois mil anos.
Os artefatos foram localizados em uma área caracterizada por terrenos pantanosos e formações naturais alagadas e são datados de meados e da segunda metade do século III antes de Cristo, figurando entre as moedas celtas mais antigas já identificadas no país.
A descoberta ocorreu na primavera de 2025, durante trabalhos conduzidos por arqueólogos voluntários ligados à Archaeology Baselland. A área já vinha sendo estudada desde que, em 2023, foi encontrado no mesmo local um conjunto de 34 moedas de prata celtas, datadas entre aproximadamente 80 e 70 antes de Cristo.
Esse achado anterior motivou a ampliação das pesquisas no entorno do sítio arqueológico de Bärenfels, cuja paisagem apresenta dolinas naturais preenchidas por água e solos encharcados. Foi nesse contexto que os pesquisadores localizaram duas moedas de ouro, sendo uma correspondente a um estáter completo e outra a um quarto de estáter.
As moedas pesam cerca de 7,8 gramas e 1,86 gramas e integram um grupo extremamente restrito de achados semelhantes na Suíça, com pouco mais de vinte exemplares conhecidos. Elas pertencem a um período inicial da cunhagem celta, quando diferentes comunidades passaram a produzir moedas inspiradas em modelos helenísticos.
A principal referência eram os estáteres de ouro emitidos no século IV antes de Cristo durante o reinado de Filipe II da Macedônia, que circulavam amplamente no mundo grego e eram utilizados, entre outras finalidades, como pagamento a mercenários celtas.
Do ponto de vista iconográfico, as moedas encontradas em Arisdorf mantêm elementos centrais desses protótipos mediterrâneos. Em uma das faces aparece a representação da cabeça do deus grego Apolo, enquanto o reverso apresenta uma carruagem puxada por cavalos.
Apesar da clara influência externa, os artefatos também revelam adaptações típicas da estética celta. Na moeda de menor valor, por exemplo, é possível identificar um motivo de espiral tripla, conhecido como triskelion, símbolo recorrente na arte celta e frequentemente associado a crenças religiosas dessas populações.
Pesquisadores destacam que moedas de ouro desse tipo dificilmente eram utilizadas em transações cotidianas, em razão de seu elevado valor. A interpretação mais aceita é que esses objetos funcionavam como símbolos de prestígio, presentes diplomáticos, pagamentos destinados a líderes ou seguidores, ou ainda como dotes matrimoniais.
No entanto, o local onde foram encontradas aponta para outra possibilidade interpretativa. Descobertas semelhantes em áreas próximas a água, pântanos ou zonas consideradas liminares são recorrentes em diferentes regiões da Europa Central, ambientes que os celtas associavam a significados sagrados.
O pântano de Bärenfels, formado por dolinas naturais alagadas, se encaixa nesse padrão observado em outros sítios arqueológicos. Com base nesse contexto, os arqueólogos consideram plausível que as moedas tenham sido depositadas de forma intencional como oferendas votivas a divindades.
Depósitos rituais desse tipo já foram documentados em diversos pontos da Europa Central e também são mencionados em fontes escritas da Antiguidade, indicando que se tratava de uma prática relativamente difundida.
Após os trabalhos de análise e conservação, as duas moedas de ouro serão apresentadas ao público juntamente com o conjunto de moedas de prata encontrado anteriormente.
A exposição está prevista para ocorrer em Basileia a partir de março de 2026, reunindo artefatos que contribuem para o aprofundamento do conhecimento sobre a economia, a iconografia e as práticas religiosas das comunidades celtas que habitaram a região há mais de dois milênios.




